Tudo o que vivemos fica bem armazenado e os fatos vão voltando, como em capítulos, à nossa memória.

Lembrei hoje de uma funcionária que tive, quando estava grávida de minha filha caçula. Já tinha três crianças e, depois de uma pausa de cinco anos, descobri que seria mãe de novo. Os últimos meses foram difíceis. Peguei o forte do verão, pés inchados e os dias abafados me sufocavam. Levantava de noite e ia pegar um ventinho pelas fretas das venezianas.

Mal de assistente tinha que aguentar os deslizes da Zafira, por falta de ânimo para me encarregar dos serviços. Bom humor ela tinha e suas gargalhadas ecoavam pela casa.

No entanto, não aprendia o nosso sistema e era relaxada e sorrateira. Claro que percebia suas manobras, mas não encontrava outra solução.

Tudo culminou quando ela apareceu com meu distintivo do Rotary na lapela. Tínhamos encomendado para São Paulo a fim de uniformizar aquele broche entre as esposas dos rotarianos.

Fiquei sem ação olhando para Zafira, mas não disse nada. Contando para uma amiga mais despachada ela quase me obrigou a tomar uma atitude.

Então, meio sem jeito, a interpelei:
-Este distintivo é meu e é só das senhoras do Rotary.

Ela me respondeu, sem hesitar:
-É muito meu, comprei lá no seu Marino Casanova.
E saiu rebolando, me deixando paralisada, de boca aberta.

Depois deste incidente, um anjo bateu à minha porta querendo trabalhar comigo. Uma pessoa excelente que ficou treze anos em nossa casa . Esta outra história contarei oportunamente.

Demiti Zafira. Saiu sem mágoas, sorrindo e me abraçando.
Uns dois anos depois um convite surpreendente. Iria casar e queria que fôssemos seus padrinhos. Marcou dia e hora.
Fomos buscar a noiva e o carro grandão (não lembro a marca) ficou lotado por quase toda a família. Risos e alegrias e o nosso presente elogiado por todos.

E o distintivo? Tive que comprar outro, mas perdoei de coração a Zafira.
Ela era também uma dama, apesar de não ser esposa de um rotariano.
Maria Augusta Silveira Alves