Nesta segunda-feira, dia 19, o Rio Grande do Sul comemora seu 281º aniversário de sua criação como reduto brasileiro. Nessa data, em 1737, o brigadeiro José da Silva Paes desembarcava da galera Leão Dourado, capitaneada por Pedro Siqueira de Abreu, na barra do rio de São Pedro, hoje cidade de Rio Grande.

Há controvérsias se foi um ato derivativo ou proposital. A frota era proveniente de Montevidéu, após a segunda frustrada tentativa de apossar-se do local, não só como apoio para a Colônia do Sacramento, como pretensões de posse do território hoje da República do Uruguai, tanto que os padres João Batista Capassi e Diogo Soares percorreram a costa da região, a fim de fazer o mapa geográfico e astronômico (GPS da época). O famoso sertanista e tropeiro Cristovão Pereira de Abreu, com centena e meia de paulistas, chegara antes ao local, a fim de prepará-lo para receber a comitiva.

Este extremo do Brasil era habitado, há milhares de anos, pelas nações nativas Gê e Mbaya; e na época do início da conquista lusitana, povos missioneiros de jesuítas espanhóis formavam a primeira civilização aqui ocorrida. No entanto, desde as primeiras notícias de ocupação destas plagas, a Coroa Portuguesa já mostrava intenções de povoá-las, por conta de relatos sobre as potencialidades da região.

A então donataria dos Assecas, na primeira metade do século XVII, mudou para Repartição do Sul, abrangendo os atuais Rio Grande e Uruguai, sob o comando de Sebastião de Sá e Benavides. E efetivou-se no início do século seguinte, com a chegada no Viamão de João de Magalhães, genro de Brito Peixoto, fundador de Laguna, trazendo 30 famílias, assentadas na região hoje de Tramandaí a Torres.

As divergências entre Silva Paes e o comandante da esquadra, Abreu Prego, fez com que, novamente, abortasse a pretendida ocupação do sitio de Montevidéu. Em outubro de 1735, o governador de Buenos Aires, D.Miguel Salzedo, com poderoso exército, quase todo de nativos das reduções, pôs cerco à Colônia durante dois anos, bravamente defendido por Antonio Pedro Vasconselos com 500 comandados. A expedição de Silva Paes tinha três objetivos: ocupar a barra do rio de São Pedro, o sítio de Montevidéu e romper o cerco de Sacramento; só o primeiro resultou obtido. Logo ergueu-se o forte Jesus, Maria José, e outras construções tiveram início, depois completadas por André Ribeiro Coutinho, que fizera parte da expedição para assumir o governo de Montevidéu. Silva Paes, explorando a lagoa Mirim, e ao sul, levantou o forte São Miguel, na atual região do Chuí.

O Tratado de Paris, de 26 de março de 1737, terminou com as hostilidades no Prata. No final do ano, Silva Paes passou o comando da novel província para Coutinho, que deu prosseguimento ao processo de povoamento. Ao solicitar suprimentos para o incipiente povoado, incluiu a vinda de mulheres, e cavaleiros para compor um exército; aquelas foram supridas com “mossuelas” nos bordéis do Rio de Janeiro, e estes entre tropeiros paulistas. Atualmente, o forte São Miguel é atrativo para turistas que demandam aos shoppings do Xuí, na busca de bebidas e eletrônicos. Mas sua elevação, junto com o presídio Jesus, Maria, José, na barra do rio de São Pedro, mudaram a fronteira do país de Laguna para o Chuí.

Os desacertos das infrutíferas tentativas de ocupar o Prata foram lançadas sobre Silva Paes. Após deixar o Rio Grande, ficou exilado como governador na ilha de Santa Catarina por 10 anos, sendo esquecido pela História. Só no início do século passado houve sua reabilitação, na pena de Alfredo Rodrigues, Aurelio Porto, Rego Monteiro, João Borges Fortes, Moysés Vellinho. O Rio Grande ainda lhe deve o tributo de sua existência como terra brasileira. Poucas são as homenagens, e só aqui no Sul, são prestadas ao Brigadeiro, o qual deu início aos procedimentos para a extensão de 150 légua de território ao extremo sul brasileiro.

Rivadavia Severo