É absolutamente certo que a verdade é incerta. Só a matemática está agasalhada com a certeza, pois, em qualquer canto do Universo, juntando-se uma unidade a outra, tem-se duas unidades, e unindo-se dois desses conjuntos, teremos quatro unidades; mesmo a Física ou a Química, em outras regiões do Universo podem reagir de modo diverso. A história do Universo percorre estas trilhas: bíblica (e similares), mitológica (diversas) e evolucionista.

As primeiras, em suas várias versões, são expressas e acabadas, pois estão consubstanciadas nas literaturas próprias; já a última, evolui ao sabor dos tempos. Quase todas as teorias, de grande parte das ciências, são simples hipóteses, pois não podem ser demonstradas. Assim, podemos dizer que a verdade é aquela tida hoje como tal.

As versões bíblica e mitológica são questões de fé ou tradição. Tomamos, pois, a linha científica. O decurso do tempo nas mais variadas teorias da existência do Universo diferem. Assim, vamos nos basear na mais recente delas, proposta pelo israelense Yuval Noah Harari, professor de História na Universidade de Jerusalém, expressa na obra “Sapiens”. Publicada em 2011, traduzida para o Brasil em 2015, ingressa no ano seguinte no rol das obras de “não ficção” mais vendidas, assumindo, em julho do ano passado, o topo da lista. Vamo-nos servir, na integra e exclusivamente, em nossas considerações, nos dados do livro citado.

Num tempo equivalente há 13,5 bilhões de anos (por que não 13 ou 14?) surgiram no Caos matéria e energia (início da Física) e apareceram átomos e moléculas (começo da Química). Como a evolução do Universo não é nosso tema, vamos dar um grande salto. Há 4,5 bilhões, inicia a formação de nosso planeta no Sistema Solar, e há 3,8 bilhões, aparecem organismos (princípio da Biologia e Botânica).

Também não cogitamos da evolução dos reinos animal, vegetal e mineral na Terra, só nos interessando a espécie humana. Assim, há 6 milhões de anos, desaparece o último primata comum de humanos e chimpanzés. Essa primata, na atual Africa central, teve duas filhas; uma delas, ancestral dos chimpanzés, a outra (Lucy?) gerando o australopithecus, um dos últimos antecessores dos hominídeos, e os pithecantropus, os quais, afinal, deram partida para nossa espécie. Há 2,5 milhões de anos, o gênero Homo já evoluíra, utilizando-se de ferramentas de pedra, e meio milhão de anos após, começou a espalhar-se pela Eurásia.

Essas espécies receberam, posteriormente, denominações conforme os locais onde foram encontrados seus fósseis, como os heindelbergensis na Europa e os denisovanos na Asia. O gênero Homo, tornando-se bípedes, deixou de utilizar os membros dianteiros para locomoção, passando a usá-los no manuseio. Disso decorreu a capacitação do cérebro para essas habilidades, iniciando a diferenciação com outros animais mais evoluídos.

Há 500 mil anos surgem na Europa os neanderthais, espécie mais próxima da nossa, e há 300 mil anos o fogo foi dominado pela maioria das espécies Homo. Sua utilização cotidiana influiu na alimentação, habitação e proteção contra os predadores, sendo marco importante na vida humana no planeta. Há 200 mil anos, ocorre o aparecimento do Homo sapiens no leste africano (hoje território da Etiopia). Até aí, porém, este gênero pouco se diferenciava dos demais, e outros animais evoluídos.

Há 70 mil anos houve a chamada revolução cognitiva, com a linguagem ficcional (começo da História), a espécie sapiens se espalha pela Europa e Oriente médio; há 45 mil chega à Australia e há 15 mil à America. Há 30 mil anos houve a extinção dos neanderthais, e a 13 mil dos florestensis, povo anão de ilhas da Oceania, resultando os sapiens como os únicos do gênero Homo na Terra.

A grande mudança acontece há 12 mil anos com a revolução agrícola e a domesticação de animais. A espécie deixa de ser nômade caçadora-coletora, tornando-se sedentária e produtora, criando pequenos grupos habitacionais (Sociologia, Economia, costumes). Decorre daí, há 5 mil anos, os primeiros reinos e o império Acádio de Sargão, no Crescente Fértil, hoje Iraque e parte da Siria, Iran e Turquia (política, administração, medicina).

Logo aparece o dinheiro, com conchas e sementes, evoluindo para a moeda metálica e papel e, agora, escritural, facilitando o comércio e dando foros para o capitalismo. Surge a escrita, melhorando os registros e as comunicações, e também impulsionando a literatura, antes só conhecida na forma oral.

Há 500 anos ocorre a revolução científica. A humanidade dá-se conta de sua ignorância, sua estagnação mental, que aceitara dogmas milenares sem contestação. No povo, que só produzia para a nobreza e o clero, surgem mentes arejadas, que conseguem convencer os reis a deixarem de só consumir suas riquezas na construção de palácios e catedrais, práticas gastronômicas, vestimentas e bijuterias, investindo em empreendimentos.

O resultado de pesquisas, experimentos e coragem levam os europeus a novas terras e a outros interesses. O sistema capitalista ampara-se no crédito, sustentado pela confiança, que abre mais oportunidades ao convívio social. Há 200 anos acontece a revolução industrial, quando alguém dá mais atenção ao milenar saltitar da tampa da chaleira no fogo. Daí decorrem progressos em todas as áreas e a mudança radical na vida humana, com todas as facilidades cotidianas. Todas essas novidades trouxeram felicidades para o Mundo? Somos mais felizes que o homem das cavernas? (questionamento do escritor). Com medicina precária e empírica, baseada na crendice, viviam menos do que nós, mas, pelo menos, não morriam de acidente de automóvel.

A trilogia da Revolução Francesa – liberdade, igualdade, fraternidade – pode haver acontecido nos extremos, mas falho no meio. Publicações recentes dão conta de que 82% da riqueza mundial está nas mãos de 1% da população; que no Brasil existem 43 bilionários e que cinco deles possuem patrimônio igual ao da metade mais pobre do país. Os trogloditas gastavam cinco horas do dia adquirindo o que necessitavam para a subsistência, desfrutando o restante no lazer e convívio com a família e companheiros.

Atualmente, entre trabalho e locomoção há dispêndio de metade do dia; a sobra é gasta no repouso e, quase sempre, na tela da Tv ou no smartphone. Para o historiador citado, nosso planeta verde e azul está se transformando num grande shopping de concreto e plástico. Mas há chances de ainda haver a grande e solidária Aldeia Global, mesmo persistindo agora conflagrações por ideologia religiosa; desde que, suprima-se a ganância e a discriminação, e junte-se à trilogia Liberdade, Igualdade, Fraternidade, a tolerância pelo livre-arbítrio alheio.


Rivadavia Severo

 

(Foto: titoOnz/iStock)