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Artigo – Descobridores do Brasil (I) – Rivadavia Severo

Artigo – Descobridores do Brasil (I) – Rivadavia Severo

Criada a rota marítima para as Índias, por Vasco da Gama, em 1498, o rei português D. Manuel mandou organizar uma esquadra, a fim de fundar e assegurar um império no Oriente. Uma frota com treze naves e tripulação de cerca de mil e duzentos pessoas, confiada ao fidalgo Pedro Alvares Cabral, partiu de Lisboa a 9 de março de 1500.

Desviada da rota pelas correntes marítimas, rumou para Oeste, vindo chegar, a 22 de abril, à costa de terras tidas desconhecidas. Seguindo em direção norte, à procura de local para atracação das embarcações, encontrou porto seguro em sítio hoje conhecido como praia Cabrálica, no estado da Bahia. Após estada de uma semana no local, levantou âncoras rumo ao objeto da missão: criar e garantir um império português no Oriente.

Esse fato corriqueiro permaneceu assim por três séculos e meio. Em meados do século XIX tudo mudou: o imperador do Brasil, D. Pedro II, provavelmente por sugestão de Varnahen, e talvez para chamar a atenção do povo, chancelou-o como o “Descobrimento do Brasil”. Desde o início do século passado, então, os livros escolares de História do Brasil passaram a reproduzir as pinturas “Desembarque de Cabral”, de Oscar Pereira da Silva (Museu Histórico do Rio), e “1ª Missa” de Victor Meirelles (Museu de Belas Artes do Rio). Pedro Alvares Cabral passou o ser o descobridor do Brasil, a 22 de abril de 1500.

A estada de europeus em terras americanas, anteriores a Colombo e Cabral, é ponto pacífico na comunidade historiográfica nacional. Talvez tenha sido Pero Magalhães Gândavo, considerado o primeiro historiador brasileiro, ainda no século XVI, a alvitrar a hipótese. Na Escandinávia, credita-se aos vickings o pioneirismo, que teriam alcançado a costa do Canadá, no século IX, servindo-se de “pontes” na Islândia e Groelândia; mas isso sãos suposições, pois não são fatos, carecem de provas materiais; mas essas existem, com relação ao Brasil: diários de viagem, relatos e cartas indicam que franceses estiveram rondando por aqui antes dos portugueses.

Em 1488, o almirante francês Jean Cousan, tendo por imediato e guia Martin Alonso Pinzón, partindo do porto de Dieppe, navegou junto à foz do rio Amazonas e a costa ao norte no atual estado do Acre. Foi esse Pinzón que informou Colombo da existência de terras no outro lado do Atlântico, tanto que recebeu o comando da caravela Pinta, para ser guia na frota tida como a da descoberta da América. Essas versões são aceitas pelos historiadores clássicos brasileiros, Francisco Adolfo Varnhagen (1816-78) e João Capristrano de Abreu (1853-1927), os confrades mais recentes João Calmon e Rocha Pombo, e atuais, como os gaúchos Decio Freitas, Thales Guaracy e o folclórico “Peninha”. Também teriam estado na costa brasileira Alonso de Ajeda em maio de 1499, Yañez Pinzón em dezembro, Diego de Lepe em janeiro de 1500.

Após a estada da frota de Cabral, estas bandas viraram terra de ninguém, ou melhor dito: terra de qualquer um. Em 1530, dez anos após ocupar o trono, o rei D. João III (1521-57) resolveu ocupar o Brasil. Segundo Capistrano de Abreu, “até então estivera entregue a degredados, desertores, aventureiros e traficantes da madeira que lhe dera o nome” (Ybirá Pirãna, Ibyra Piranga, Caesalpinia Echinara).

Três anos antes, já havia despachado uma esquadra sob o comando de Cristóvão Jacques, que aqui já estivera antes, a fim de realizar exploração preliminar. Ele e João Melo da Câmara, em separado, ofereceram-se para colonizar as novas terras, “levando mil povoadores, bois, cavalos, sementes etc.” Porém, o Rei escolheria outro nome. Até então, a presença portuguesa praticamente resumia-se a João Ramalho, tido como homem sem passado, pois dele só se conhecia o nome, e Diogo Alvares, o legendário Caramuru, que já estariam aqui antes de Cabral. João Ramalho, nominado pelos nativos de Piratininga (peixe seco), iniciara nova etnia: a cabocla. Carismático, tinha livre trânsito entre os gentios, deixara extensa descendência com nativas em quase todas as aldeias que percorrera; só com a favorita Bartira tivera 10 filhos.

Já no mês de dezembro, partia de Lisboa a expedição sob o comando de Martim Afonso de Souza, designado “capitão-mor da armada da terra do Brasil e de todas que achar e descobrir”. Recebeu plenos poderes para “fundar povoações, administrar a justiça, distribuir sesmarias”. Com “cartas de dação”, foram distribuídas quinze capitanias hereditárias, da foz do Amazonas ao sul de São Vicente, primeira povoação brasileira, fundada por Martim Afonso.

Ao retornar para a corte, deixou como substituto Brás Cubas (fundador de Santos), que fez prosperar a Capitania, assim como ocorreu com as de Ilhéus e Pernambuco. As plantações de cana logo deram resultado, apesar das dificuldades de mão-de-obra, pois o trabalho assalariado era inviável, o escravo negro muito caro e a ocupação do nativo não resolveu, pois o gentio não se submetia a nenhum tipo de vassalagem.

Para colonizar a nova terra era preciso, também, vencer a hostilidade e submeter as tribos selvagens. Com a vinda de Ana Pimentel, esposa de Martim Afonso, vieram os primeiros gado e cavalos para o Brasil. Em pouco tempo, pois, mesmo os precários engenhos passaram a oferecer produção compensadora. Houve mudança no refrão de “navegar é preciso” para “colonizar é preciso”, pois as terras brasileiras poderiam fornecer os mesmos produtos das Indias, com ¹/³ de distância de viagem, e mais segura.

Rivadavia Severo

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