Maria Augusta e Anna Zoé (Foto: Divulgação)

 

Quando vou trabalhar em sala de aula algum livro clássico, o Emílio, de Rousseau, por exemplo, costumo salientar aos estudantes que este foi um livro escrito à mão, na pena de ganso, não raro à luz de velas, e que isso demandou um grande esforço daquele que pensou e depois escreveu.

Depois foi preciso tratar do manuscrito, cuidar dos originais, até que o produto da reflexão encontrasse a prensa e virasse um livro que pode ser comprado em uma livraria. Quando vou tratar do livro Apologia da História, de Marc Bloch, faço questão de ressaltar que foi escrito na prisão, que a obra é inacabada e que o autor não pode terminá-la porque antes disso foi fuzilado pelos nazistas. Quando viajo e dou uma olhadinha na livraria do aeroporto tenho vontade de chorar ao ver o baixíssimo nível dos livros que são os mais vendidos, em geral escritos por picaretas de diversas áreas.

Diante do atual analfabetismo funcional disseminado, inclusive entre os escolarizados, que se desinformam dando uma olhadela desconcentrada em qualquer absurdo, escrito por qualquer um, que porventura chegar a sua telinha do celular, só há uma saída: reafirmar a importância do estudo, da dúvida e da reflexão. Evidentemente que parar – veja bem, parar – para ler um livro, fazer um mate, um café ou servir uma taça de vinho, se acomodar numa poltrona ou numa mesa de trabalho, e em silêncio mergulhar no universo do conhecimento, é algo muito diferente do que forçar os olhos para ler um texto qualquer na tela do celular, enquanto se faz várias outras coisas ao mesmo tempo. O fenômeno das fake-news é apenas a consequência lógica da forma atual de circulação de informações, da desatenção e das leituras dinâmicas.

Mas este texto é antes de mais nada um agradecimento e uma homenagem à minha vó Maria Augusta, cronista deste periódico. Meu gosto pela leitura foi fortemente influenciado por ela. Lembro de vê-la saboreando um livro ante da sesta e de imitá-la. Após o almoço era preciso respeitar a soneca do vô, o que significava fazer silêncio absoluto num apartamento quarto e sala, e então era um prazer descer à frente do edifício Santa Fé, sentar no banco verde e ler de frente para os tons de azul do mar e do céu, sob a brisa e o som do Oceano Atlântico.

A vó Maria Augusta tem escrito crônicas lindas, como vocês leitores bem sabem. Caminhando devagarinho pelas cidades, observa nossa época com o olhar arguto de quem muito já viveu, com a sensibilidade de quem muito já sofreu e foi feliz, com o ceticismo de quem já viu de tudo acontecer e com a esperança de quem sabe que uma hora ou outra as flores vão desabrochar e que poderemos ao menos, neste vale de lágrimas, lagartear sob o sol da primavera.

Que as crônicas da vó estão inspiradíssimas vocês leitores sabem. O que não sabem é que elas são escritas à mão, na salinha ensolarada da velha casa da rua Sete de setembro, em meio aos jornais e ao material do croché. Depois de riscadas e corrigidas minuciosamente, ficam prontas e são entregues à Tia Zoé, que as transcreve para o computador. E aí acabam aqui nestas páginas, entram para a história, como mensagens na garrafa.

Deixo aqui minha homenagem à vó e a todos os escritores e poetas que se empenham nesta inútil atividade de escrever.

Marcelo Mayora Alves
Professor da Unipampa