Fernando Pessoa (1888-1935), ao lado de Camões, foi o mais importante poeta português. Julgando-se incapaz de expressar o mundo por si mesmo, ele criou diversos heterônimos, isto é, autores fictícios para os quais se concede uma personalidade que é “administrada” pelo ortônimo, o autor. Os mais conhecidos heterônimos de Pessoa são Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis. Existe um heterônimo pessoano que não possui tanta notoriedade, responsável por uma frase lapidar: “Minha pátria é minha língua”. Trata-se de Bernardo Soares.

Considero que, sim, uma das formas de entender-me parte de uma pátria é a língua, ela nos concede identidade, diante de um argentino ou um britânico, sentimo-nos acolhidos quando encontramos um brasileiro em qualquer lugar do mundo.

Meses atrás, ao ouvir a palestra de Robinson Shiba, o megaempresário do grupo China Box, que esteve no Recanto Maestro, em Restinga Seca, ele dizia que um grande diferencial no mercado de trabalho, antigamente, era falar inglês com fluência, mas, hoje em dia, diante das verdadeiras aberrações no uso da língua portuguesa, os empresários estão buscando – com avidez – candidatos capazes de escreverem UMA sentença (oração frasal) que empregue minimamente os recursos da língua portuguesa culta.

Não se admite, no meio profissional, que alguém justifique os desvios de linguagem com um “ah, se entendeu, tá bom”. Trata-se de respeito à língua materna que nos dá identidade e, neste sentido, aos padrões que são ditados por uma Academia de Letras que normatiza a língua usada por mais de 200 milhões de pessoas – você já imaginou se cada brasileiro (para não mencionar portugueses, angolanos, moçambicanos, timorenses) resolvesse usar a língua a seu modo? Em pouco tempo, não mais nos entenderíamos!

Estamos vergonhosamente carentes de moral, de ética, de respeito humano – e, dias atrás, o comentarista de uma emissora de rádio formulou uma observação magistral: como formar pais e professores capazes de disseminar uma educação libertadora, inovadora se esses pais e professores são fruto de um sistema falido? Neste aspecto, penso que ensinar a respeitar regras, normas, padrões de conduta pode ser um bom início. Não se trata apenas de dizer “Com licença”, “Por favor”, mas saber que “Muito obrigada” é dito pela mulher e “Muito obrigado” é dito pelo homem”, porque respeitando os padrões, entendendo que pequenos gestos, pequenos movimentos, inclusive, linguísticos determinam atitudes maiores, mais comprometidas. Já dizia a minha avó que é “de pequeno, que se torce o pepino”.

Profa. Dra. Elaine dos Santos
Revisora de textos acadêmicos / Palestrante
Contato e.kilian@gmail.com