Havia prometido com bastante antecedência que nesse ano novo eu seria diferente de todos os outros sessenta e oito anos que já vivi. Logo depois do Ano Novo, iria passar umas férias no Caribe, talvez visitasse Cuba para dar uma volta naqueles carros velhinhos ainda socialistas que só perduram “por allá”.

No carnaval, viajaria para o Nordeste, ali por Fortaleza, Natal quem sabe. Durante os quatro meses do inverno, me mudaria de mala e cuia com a mulher e a filha para a Amazônia, lá pra Manaus ou Boa Vista onde já morei quando era milico e abria a BR-174, lidando com índios não aculturados (Waimiris/Atroaris) contrários à abertura da estrada que afugentava as suas caças de sobrevivência.

No Caribe ficaria de papo pro ar naquele marzão de água clarinha e de temperatura morna, rodeado de coqueiros e de bailarinas do ula-ula. No nordeste brasileiro, beberia muita água de coco e tapioca com carne de sol e queijo coalho, visto ser alérgico a camarão e a outros frutos do mar. “Por lanoche”, uma castanha de caju para refrescar a goela com cachaça da boa.

No Amazonas, muito tucunaré, tambaqui e farinha d’água. Se estivesse por Belém, comeria um pato ao tucupi com caruru e quiabo e visitaria o velho Mercado de Ver o Peso à procura de alguma erva afrodisíaca, porque na idade em que já estou ninguém mais é de ferro puro, o caboclo já começa a perder a templa.

Lá por meados de setembro, quando as azaleias florissem e os sabiás iniciassem a cantar nos galhos das pitangueiras de beira do mato, eu retornaria para Caçapava, a tempo de dançar pelo menos um baile da Semana Farroupilha e ver o desfile de encerramento para matar a saudade do cheiro dos cavalos da minha terra.

Passado o dia de finados, quando aquela ventania braba vinda lá dos castelhanos teima em apagar as velas que não conseguimos acender, já começaria a me preparar para viajar de novo, até por que quase toda a gurizada já estaria em tempo de férias escolares e os parentes que moram longe avisam que vem passar as próprias férias na casa da gente, quando as despesas ficam brasinhas. Minha família aprovou os meus planos. Oba! Agora só me falta conseguir o dinheiro pras viagens que, feitas as contas, também não é lá essas cosas.

Zauri Tiaraju de Castro
ztiaraju@yahoo.com.br