Casa dos Ministérios na rua Sete de Setembro
(Foto: Lislair Leão / Divulgação)

A origem geográfica de uma pessoa vai além da vida. Em qualquer lugar que se possa estar, longe ou perto, estamos sempre a falar e imprimir a nossa naturalidade. Amamos o lugar que nascemos. É o lugar de nossos primeiros afetos, de formação, de referencia ou de identidade. Ser gentílico “caçapavano” é motivo de honra principalmente pela significativa história e tradição deste lugar.

Para cumprir com nosso papel social ao mundo, seja na formação de família, no trabalho ou em outras realizações, nos é permitido o direito de ir e vir. Fiquei 30 anos fora de Caçapava. Quando ia levava na bagagem uma saudade e quando voltava todas as emoções brotavam: das alegrias de ver as pessoas queridas a surpresas e tristezas de assistir a cidade tão estagnada e sem conservação das edificações históricas e do descuido com o Patrimônio Histórico.

Patrimônio Histórico e Cultural é a herança que pertence a um lugar e esse legado deve ser preservado e conservado a fim de transmitir os ensinamentos as gerações vindouras. O dia 17 de agosto é dedicado ao Dia Nacional do Patrimônio Histórico. Para compactuar este dia, busquei sentimentos de caçapavanos que atualmente estão vivendo em outros lugares.

A Escritora e Tradicionalista, Vera Lima Ceroni, sente-se triste com o abandono da nossa “querência” como diz, tão rica de história e passado, mas não deixa de ser orgulhosa por ser filha dessa terra. A preservação deve ser garantida ao futuro para que as novas gerações a conheçam; como não está valorizado, irão dar pouco valor. Reforça: “A população deve preservar e cobrar do poder público a divulgação da história e o cuidado do Patrimônio Histórico e Cultural.

A Escritora Vera ficou 50 anos afastada da querência amada. Voltou, este ano, para eventos na cidade. Sensibilizada quer criar um Instituto Cultural, em Caçapava do Sul, para mostrar as riquezas da terra, tanto em talentos humanos como do resgate e preservação do Patrimônio Histórico, visando gerar renda e riquezas, com acessibilidade a toda comunidade. Conta com apoio do poder público e da população para realizar o seu sonho.
O Médico Pediatra, Hélio Simão, que recentemente visitou nossa cidade, constatou: “Alguns prédios históricos necessitam de restauração ou manutenção como cuidados com a fachada ou estrutura, Igreja Matriz e Casa Paroquial! Outros me chamaram a atenção pelo cuidado e reformas, por exemplo, a Escola Estadual Dinarte Ribeiro e a Fonte do Mato”.

Dr. Hélio sugere “mobilizar a comunidade para adoção de prédios históricos, campanhas de adoção por empresas e pessoas físicas, mesmo por caçapavanos não residentes na cidade. E recomenda ao poder público “um estudo do acervo histórico cultural com prioridade de ações definidas com os representantes da comunidade e gestores.”.
O Arquiteto e Urbanista, Ibanez Razzera, faz a reflexão: “Todos os prédios com algum valor arquitetônico seja do início do século ou até metade do século estão abandonados ou em ruínas e sendo comprados…, colocam tudo abaixo e constrói um prédio… de baixa qualidade arquitetônica e sem nenhuma preocupação com o contexto urbano”, e questiona: “Que imagens, fatos ou registros são “perceptivos” sobre por onde percebemos (ou sabemos), que Caçapava foi a segunda capital farroupilha?”.

O Arquiteto e Urbanista acredita na sensibilização da população sobre a beleza das poucas casas que ainda nos mostram como era nossa cidade, que de uma maneira ou outra, nos remete ao passado, através da atmosfera de visualizar nas ruas e calçadas a história que ali aconteceu. Questiona: “Quando um Turista chega, sobrou pouca coisa para nos levar a um clima histórico, que tanto orgulha aos caçapavanos. Mesmo indo até o Forte, o que tem ali, a não serem os paredões?” E reforça: “Isto serve ao poder publico também, afinal ele é o órgão que deveria se preocupar em manter viva a cultura e tradição de um lugar, único em nosso Estado.”.

O Arq. Ibanez revela que pretende fazer um livro, com acervo particular de fotografias com valor arquitetônico, guardados por quase 30 anos. “Quero contar suas histórias, seu valor arquitetônico e suas importâncias dentro de minha história durante o tempo que, neste lugar, cresci e vivi.”

O Mestrando em Museologia e Patrimônio – UFRGS, Museólogo e Especialista em Patrimônio – UNB, Rafael Teixeira Chaves, desabafa: “Abandono e descaso, pessoas sem capacitação para exercer funções em cargos, vejo que a administração não está pensando no futuro do nosso Patrimônio, e nem em proteger nossas Memórias, o Museu Lanceiros do Sul. Recentemente, montaram um ringue de Muay Thai, ao lado de vitrines com um acervo de importância nacional. Além disto, já aconteceu uma exposição onde um acervo que passou muito tempo dentro de uma vitrine, saiu do Museu e foi para uma exposição no Clube União Caçapavana. Se não bastasse, este acervo que era uma fantasia de carnaval, foi vestido em um manequim. Imaginem quantos danos essa fantasia passou?” E pergunta: “Até quando vamos deixar nosso patrimônio nas mãos de pessoas inabilitadas? Um dano ao patrimônio que vem sendo silenciado com danos irreversíveis ao acervo do Museu. Lembrando que segundo a Lei o profissional responsável para esta atribuição é o Museólogo.”.

Acrescenta: “Se a administração Municipal pensar no Patrimônio como uma ‘’coisa’’ ‘’velha’’ e sem importância, como pensar o Turismo? Se o patrimônio natural e material está abandonado, como pensar o Patrimônio como um agente turístico e cultural? O turista quer conhecer as belezas históricas e naturais.”.

Para o Museólogo Rafael, “A comunidade deve cobrar os administradores, Caçapava precisa com urgência de um núcleo de preservação patrimônio histórico e cultural, com pessoas capacitadas para exercer as funções. Atualmente parece que a administração quer ver o Patrimônio destruído, pois está tudo abandonado e em ruínas inabitáveis. O Patrimônio é nosso, temos que encontrar mecanismos de proteção e reativação destes bens culturais, aproveitando como um fator turístico, e gerador de renda.”

A Professora da UFSM, Dra. Veneza Mayora Ronsini, sintetiza: “Prédios históricos sempre promovem o Turismo se tivermos políticas adequadas. A cidade precisa investir nisso. A natureza em Caçapava deveria entrar como parte deste conjunto que se designa como Patrimônio. Como não trabalho com o tema faria uma pesquisa sobre essa nova maneira de ver a natureza como Patrimônio. Nossos rios podem ser devastados com a exploração indevida das riquezas do solo caçapavano. Muitas localidades no mundo tiveram seus habitantes contaminados por doenças terríveis.”

Assim como “uma abelha recolhe o néctar, sem prejudicar a cor e perfume da flor” nós caçapavanos podemos resgatar, preservar, conservar e construir nossas Memórias, do passado e presente, sem lesar os resquícios da história do nosso lugar, vivendo harmoniosamente como comunidade e com o meio que nos cerca.

Lislair Leão Marques
Mestre em Engenharia Ambiental, Tecnologa em Construção Civil. No final dos anos 80, quando estudou Arquitetura e Urbanismo, atuou no Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná.