Seu Nicácio, aquele nosso amigo lá do Alto da Meia Légua, ficou sabendo, quando foi tomar um trago no final da tarde no bolicho ali da Pereirinha, que haveria um “bailezito discreto” num galpão de chão batido duma olaria que existe na estrada do Patronato. Os convidados seriam poucos, devido às restrições pandêmicas, e não se poderia espalhar muito a notícia para não chamar a atenção das autoridades fiscalizadoras. Mas lhe disseram também que até um vereador daria uma mãozinha, meio em segredo, para ajudar no cachê dos tocadores (gaita, violão e um pandeirinho pra não deixar cair o ritmo da dança).

– Tá, vou lá sim, ando loco por um retoço. Mas e a nojenta da máscara? Não vão querê me fazê dançá com as fuças tapada – questionou ao boca grande que espalhava o tal segredo.

– Pois isso não sei lhe dizê, mas calculo que agarrá um corpo pra saracoteá e não podê nem sentir o cheiro dos cabelo dela não tem fundamento…

E assim chegou o dia do tal furdunço divulgado. Alcançando as cercanias da instalação, o movimento já era grande: parecia um caramanchão de campanha. Gente pelas beiradas das casas, nas curvas da estrada, no meio das taquareiras, na cancha de bocha, e até por detrás dos montes de tijolos ainda não queimados, se esbroando.

Os protocolos sanitários estavam a “mão-de-samiá”: um litrão de Coca cheio de álcool gel com bastante água; um estoque de máscaras descartadas na entrada do salão; e o encarregado de verificar a temperatura dos entrantes sorvendo no bico de uma meia de cana, já levemente descalibrado, e com o tal termômetro no bolso da bombacha.

Justo quando acabava de penetrar no lusco-fusco da bailanta, o gaiteiro sapecou uma vaneira de dançá de cola atada. Seu Nicácio tentou braciá a primeira percanta que avistou e já foi refugado sob alegação de que não podia se dançar abraçado sem máscara, que era preciso que não se aglomerassem de maneira nenhuma, pois ainda não fizera a segunda dose da vacina. (De certo que estava entre aquelas que a Prefeitura desviou para o pessoal da Assistência Social).

Podre de nojo, pediu um trago na copa, e recostado no balcão, assistiu o povo espiando de soslaio pelas frestas das paredes ante a falta de dançarinos e o salão entregue ao medo do vírus, que afastava as pessoas e prejudicava as boas intenções dos que buscavam acalento nos braços de uma vacinada. Todinha imunizada.

Pouco passava da meia-noite quando se ouviu um grito de que os brigadianos se aproximavam. Foi uma baita rebordosa de gente se enfiando no mato e fugindo de moto e de bicicleta para tudo quanto era lado. Seu Nicácio posicionou sua máscara de couro de ovelha diante da cara e deu jeito de terminar a sua dose de conhaque com gotas de creolina, cujo vidrinho carregava na guaiaca, assim como se fosse um talismã. E assim esperou pelo desfecho dos acontecimentos. Afinal, quem não deve, não teme.