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Briga de foice

Briga de foice

EU VENHO DE LONGE, ESGANCHADO NO VENTO

NO MEU TEMPO QUE É TENTO, NÃO AFROUXO O GARRÃO

COM A CURVA DA PERNA ME AFIRMO NO LOMBO

E AS CRINAS SÃO RÉDEAS QUE TRANÇO NA MÃO

Não há talho, buraco de bala, marca de estouro de adaga ou inchaço de paulada. Nem mesmo sinal de laçaço. É como se fosse, sem nunca ter sido. O senhor me entende? A criatura se pega de rusga com ele mesmo, e não sai da tranqueira por nada desse mundo. Uma parte de si se estremece com uma coisinha à toa, nem sempre verdadeira ou perigosa, e se atraca com o outro lado dele mesmo, e fica ali encadecado por horas e horas, remoendo, assim como uma rês que fica lambendo o sangue onde a outra foi sangrada, comendo terra e capim.

Não sei se consegui lhe explicar direito: é que seguidamente me vêm essas ideias repentinas, que batem de frente com as minhas convicções de vida. Já lá se vão mais de meio século de vivências ao largo de várias facetas e ocorrências planejadas ou não. Foram milhares de expectativas, realizações e frustações. Houve vitórias, derrotas e até empates nesse jogo jogado de querer sempre mais e melhor.

É assim como um sujeito que se vê obrigado a manejar uma faca de dois gumes. Um lado arraigado às lembranças do passado, matuto, como que corta com as costas da faca; e o outro, mais moderno, urbanizado, lambe até cabelo de braço com o lado da verdade, com o fio de navalha da velha cherenga. Basta uma fofoca maldosa, uma primeira interpretação mal processada, um mal entendido qualquer e lá estou eu com minhas penas e conflitos na disputa por espaço entre a razão e o sentimento, naquele emaranhado de capoeira de lavoura de feijão mal carpida. Não sei se todo mundo é assim, mas comigo, essa confusão vive se atravessando no meu caminho quase que todos os dias. Nas noites, quando me reviro no catre, quem paga a conta é o travesseiro dobrado, virado e suado de tanto procurar uma saída para o refúgio do sono.

Ultimamente, ando exercitando controlar os pensamentos, na covardia, fugindo e fingindo que não é comigo. É como ir arrocinando um animal xucro pegado do campo. A gente vai lhe conquistando a confiança, avançando nos bons tratos até ele entender, se é que entende, que a gente quer ser amigo dele. Mas cada um na sua, pois não se pode descer ao nível dele, de perder o argumento da racionalidade para conhecer os seus motivos de ser sestroso, desconfiado até com a própria sombra. Não sei qual será o final dessa lambança. Decidi que vou perseverar. Até porque, não tá morto quem peleia. Mesmo que seja consigo mesmo.

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