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Desapegos de ocasião

Desapegos de ocasião

Tenho reparado, nestes tempos de crise pós-pandêmicos, a enorme e diversificada quantidade de itens em desapegos na praça de nossa cidade. Vende-se de tudo, de sapato furado até guarda-chuva sem cabo. Mas, ao mesmo tempo, bebe-se muita cerveja e enchem-se salões e parques de rodeio nos shows e bailes de final de semana.

Se, por um lado, falta dinheiro para alguns até para as necessidades da mesa de almoço e janta, de outro lado, sobra grana para fazer festas e viver a vida numa boa, entupindo as ruas nos finais de semana. E não são somente os ricos de carteirinha da cidade que circulam e gastam dinheiro. Aliás, os ricos mesmo nem aparecem em público, rasgando notas de duzentos. Andam pelas praias, pra fora ou viajando pelo mundo.

Tem gente que guarda tanta quinquilharia que não serve mais pra nada, em caixas, baús, atirados pelos cantos, no fundo dos pátios, nos sótãos das casas antigas, esquecidos como os trastes dos campeiros aposentados a contragosto pela idade, por doença e até por opção, vindos para o povoado, na busca tardia por mais conforto para o corpo velho “esgualepado” pelas lidas brabas da campanha.

Passei a vida mudando de cidades, de Estado e até de país e, a cada transporte das coisas, dos trastes, muitas delas perdiam utilidade e eram vendidas e/ou doadas e até deixadas para trás. Algumas poucas chegaram a fazer falta mais adiante, mas nunca foram grandes empecilhos para um bem-viver noutro lugar.

Agora, já faz cerca de dez anos que não saio do mesmo lugar. Então, resolvi fazer uma faxina. Total, de cabo a rabo, da sala até a área de serviço, incluindo galpões, quartinhos, quiosque e fundo de pátio. Não vai sobrar nada de grande utilidade ou muito querido, tipo aqueles retratos de família, recortes de jornais, móveis antigos, panelas velhas, etc., aos quais nos apegamos para contar a história para os que ficarem e, principalmente, aos que vierem para ocupar os nossos lugares. Tô pensando até em fazer uma fogueira para ver todo o lixaredo virado em cinzas.

Mas isso é muito fácil, necessário e saudável sob todos os aspectos, porém eu quero ver é o sujeito faxinar a alma, os pensamentos pesados que vivem grudados na gente, encarquilhando a nossa vida diária. Eu quero testemunhar àqueles que se “alivianam” diante de tantos penduricalhos que carregam por quase toda uma vida. Assim como um passe de descarrego, mágico e oportunista, para se libertar das preocupações inúteis, das dívidas impagáveis e dos assombros contumazes que nos azucrinam a paciência sem dar tréguas.

Tem uma linda música do saudoso Lupicínio Rodrigues – que escreveu até o hino do Grêmio – que diz mais ou menos assim: “vende-se um apartamento, no coração da cidade, por um preço de ocasião, por motivo de saudade”. Que coisa, não é mesmo? Como é que as coisas do coração, os sentimentos, podem influenciar desse modo a vida de tantas pessoas?

Vou desapegar um monte, a preço de ocasião. Aproveite você também e faça uma forcinha para se livrar de alguns males obsessores que ainda carrega por teimosia, pesando na carga da sua mochila.

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