Um dia desses, apareceu lá em casa um conhecido vendendo lenha. Lenha boa, de faxina, ou vassoura vermelha, como eu já conhecia desde os tempos de campesino. Acertamos o preço, e mandei que descarregasse os pedaços de pau para queimar na lareira quando o inverno friolento chegasse. Me gusta mirar las labaredas rubras que dançam aflitas quando os campos branqueiam de geada e até os nossos ossos entanguem de frio.

Por comodismo e um tantinho de economia, em virtude do alto preço da gasolina e do gás de cozinha, neste ano, optei por comprar o imprescindível combustível ao invés de ir buscar lá fora. (Acredito que o meu companheiro no Curso de Engenharia da Aman, Joaquim Silva e Luna, agora presidente da Petrobrás, vá descobrir um jeito de regular o custo aviltante dos combustíveis, pois capacidade para isso não lhe falta, nem engenhosidade para alterar a tal política de preços da estatal. A saber: em 1973, o Aspirante Silva e Luna servia no 3º Batalhão de Engenharia de Combate de Cachoeira do Sul, e convidou a nós, outros sete que servíamos em São Gabriel, para a festa do seu casamento. Para lá nos fomos em busca da alvissareira boca-livre. Não contávamos com o inusitado, pois o então futuro presidente da Petrobrás tinha três noivas e já havia prometido casamento para duas delas. Ele é que não compareceu ao próprio casório, frustrando a todos com sua ausência. Por isso, eu afirmo e asseguro que criatividade não lhe falta.)

Enquanto descarregava a minha lenha, recém comprada, recordei dos antigos carreteiros que vinham do interior, no inverno, vendendo lenha, laranja/bergamota e quitanda na cidade. Vendiam galinhas crioulas, ovos, abóboras e mogangos. Divulgavam suas intenções através de uma laranja madura espetada numa vara no recavém da carreta. Quando estacionavam os veículos, os bois cangados ou os cavalos de tração aproveitavam para pastar as touceiras de capim que cresciam ao largo das calçadas inexistentes das nossas ruas esburacadas desde aquele tempo.

Na época, alguns funcionários da prefeitura é que limpavam as valetas das laterais das ruas, manualmente. Os entulhos retirados para cima da própria rua voltavam com o tempo ao seu lugar de origem, já que não eram recolhidos, e o serviço continuava ininterrupto por todo o sempre, em alternância temporal inútil.

Hoje, a prefa dispõe de uma roçadeira mecânica, e os entulhos amontoados são retirados e descartados longe das vias públicas pavimentadas. O que nos falta é um projeto ousado de reurbanização em massa das vias urbanas de bairros e periferias. Por enquanto, ninguém se atreve a tal desafio, vamos avançando timidamente por meio de Emendas Parlamentares providenciadas por alguns vereadores mais interessados. E assim caminha a humanidade caçapavana, despacito no más… Mas com lenha para a lareira no inverno agora não mais transportada por tração animal.