Quando entrei na reta final do Mestrado, comecei a acompanhar os jogos do futebol feminino. Para muitos, o interesse pela modalidade (res)surgiu com a Copa do Mundo de 2019. Hoje, pela internet, consigo acompanhar partidas de diversos campeonatos e, por incrível que pareça, apesar de ser um dos de estrutura mais precária, o Brasileirão é o mais fácil de ser acompanhado – junto ao campeonato dos Estados Unidos –, pois todas as partidas são transmitidas online e de graça pela CBF TV e pela Eleven Sports, não só a Série A1 como a A2 e os campeonatos de base – inclusive, enquanto escrevia, acompanhava a estreia do Grêmio com vitória por 4 a 0 sobre o Iranduba pelo Brasileirão Feminino Sub-18. Além disso, a Série A1 tem partidas transmitidas pelo canal do YouTube Desimpedidos e em TV aberta pela Band.

Mas o que isso tem a ver com literatura? A minha área é essa, então, consumo não só os jogos como também a literatura sobre o futebol feminino. No último final de semana, li Compartiendo la gloria. El testimonio inspirador de siete mujeres futbolistas, que traz o relato em primeira pessoa de jogadoras espanholas sobre o início de suas carreiras. É sobre essa leitura que falo hoje.

Uma das funções da literatura é fazer pensar, refletir. E o que eu pensava ao fim de cada relato era como o futebol feminino espanhol de anos atrás se parece com o brasileiro de hoje. Vicky Losada, agora jogadora do Machester City, conta que, quando começou a jogar, as equipes viajavam de oito a quinze horas de ônibus a cada fim de semana para disputar as partidas. Isso me lembrou da delegação do time principal do Grêmio, em abril desse ano, viajando de ônibus de Porto Alegre a Chapecó pra enfrentar o Avaí/Kindermann. Segundo o Google, é um trajeto de 8 horas e 44 minutos. E não é como se o Grêmio não tivesse dinheiro pra elas viajarem de avião…

Outra coisa que Losada diz em seu depoimento é que, quando chegou ao primeiro time totalmente feminino (até os 14 anos, os times são mistos), ficou impressionada com o fato de que havia tantas meninas que jogassem futebol. Aí eu me lembrei de mim mesma vendo a Seleção Brasileira pela primeira vez. Já não sei se foi nas Olímpiadas de 2008 ou no Pan de 2007, mas foi por essa época. Eu conhecia a Marta, que era a melhor do mundo; a Formiga, que dispensa apresentação; mas não fazia ideia de onde vinha tanta brasileira que jogava futebol pra formarem uma seleção.

Outra importante jogadora espanhola, Vero Boquete, atualmente no Milan, cita a Marta como a referência que tinha no início da carreira. Ela também considera grandes nomes do futebol feminino mundial a Formiga e a Cristiane. É impressionante como, mesmo com todas as dificuldades, as brasileiras sempre aparecem entre as melhores.

Vero também fala em seu depoimento – e foi a primeira vez que ouvi isso – que até os anos 1960 ou 1970, as mulheres não podiam praticar esportes na Espanha. No Brasil, o futebol feminino foi proibido por lei de 1941 a 1979. Agora, corremos atrás do prejuízo que isso nos causou.

Para Alba Mellado, ex-jogadora do Madrid Club de Fútbol Femenino, o cenário da modalidade começou a mudar na Espanha na temporada 2015/2016, quando houve maior investimento e visibilidade. A ex-jogadora e hoje treinadora Laura del Río diz que, quando era criança/adolescente, não sabia que existia futebol feminino no mundo: “si no lo ves, no existe”, ela declara. Por isso a importância das transmissões das partidas.

Essas semelhanças me dão a esperança de que, com investimento e boa vontade, o futebol feminino brasileiro, um dia, chegue ao que o espanhol é hoje. Claro que lá ainda tem o que melhorar, como a arbitragem – reclamação recorrente aqui também –, mas a Espanha está muito à frente do Brasil.

 

Referência: HIDALGO, Mamen; TORRES, Carlos (Orgs.). Compartiendo la gloria. El testimonio inspirador de siete mujeres futbolistas. Málaga: Editorial La Calle, 2020. 142p. E-book.