Encontrei num desses dias passados, depois de apanhar figo maduro pra figada no tacho de cobre – que, aliás, carregou demais com esse verão chuvoso –, aquele nosso amigo que se esconde lá pela Meia Légua. Sim, porque aquele quiosque onde ele mora não é nem casa, quando muito uma cochichola, um galpãozinho daqueles de beira de mato que existiam nas fazendas antigas: um posto de agregado, tipo um rancho rústico, barreado,  de mínimas proporções.

Ele estava lá pela barraca do mesmo nome (Meia Légua), dando uma mão na lida com a courama, ajudando a embolsar a lã comprada no tarde no ano passado. Para isso, ainda se prestava pela prática que tinha naquele tipo de serviço campeiro. Quando me viu, arreganhou um sorriso daqueles que se  escondem debaixo de um bigode grande e retorcido como o dele, mas que sempre aparece através das frestas e das rugas da cara, no canto dos olhos.

– Buenas, Seu Nicácio, como é que estamos? Na lida, então, pensei que nem pegasse mais no batente? Já se vacinou?

– Vacinei só pra gripe, aquela dos véio, no ano passado, estendendo a mão enrugada e calosa das gentes humildes do interior. Pois óie, seu prefeito, ando precisado dos trocos, depois que não mandaram mais os cobres do tal auxílio, aquele que tanta incomodação me deu pra receber, mas que virou um bom ajutório nesses tempos de aperto. Andam falando que vai vortá de novo. Enquanto não vortá, vou arreglando uns pila no biscate, que é a vida do pobre – respondeu, tipo lamentando.

– Eu acho que já voltou,  no ano que vem haverá nova eleição. O senhor sabe como são essas coisas dos políticos, em ano de eleição, eles se lembram dos pobres para poder pedir voto de novo – respondi.

– Se achegue aqui pros fundo, vou le amostrá a minha nova invenção: fiz uma máscara de pele de cordeiro, bem sovadinha e liviana. Dá pra carregá até dentro da copa do chapéu, dobradinha, pra quando me pedirem pra portá, já tá na mão de samiá…

– Ficou lindaça, macanuda mesmo ha…  ha…  ha…

E assim caminha a humanidade, no jeitinho de cada qual, na esperança que é sempre mais comprida para aqueles que a sina, a sorte ou a falta de miolo destinou menos. A única vantagem aparente de usar uma máscara de pelego (couro de ovelha) é um provável tratamento facial com o restinho do sebo que ficou impregnado no carnal que, quando derrete com o calor, serve até para afumentar.