Grudado na Netflix, como ando há mais de ano, decidi assistir a uma série de sessenta capítulos, de origem espanhola, sobre a vida de Maria Madalena, uma judia da Galileia, na época em que Jesus Nazareno andava pelas aldeias, pregando a vinda de um novo reino para libertar os hebreus do domínio romano. Deixo de adiantar maiores pormenores para não dar spoiler da tal estória de ficção alicerçada na história do cristianismo.

Vivia bem mal aquela pobre gente escravizada pelo invasor e submetida a toda espécie de autoritarismo e leis muito duras por parte do Império Romano. A terra muito árida dificultava ainda mais o comércio, os transportes e a agricultura da região, carente de quase tudo. As mulheres eram submissas e, como sempre, cabia aos políticos encastelados explorar o povo e viver nababescamente em seus redutos, cercados de bajuladores e serviçais, nadando em dinheiro, festas e orgias.

O que mais me chamou atenção, no entanto, foi a precariedade das casas de moradia daquela população interiorana: água de poço, luz de candeeiro, casas sem móveis, sem piso decente, sem forro, mal cobertas e com raríssimas portas internas, só havia cortinas improvisadas.

Os chineses ainda não haviam descoberto a pólvora (foi em 904 d.C.), e os exércitos e os desafetos se enfrentavam na base da ponta das lanças, no fio das espadas e no corte das facas. O mar lhes provinha fartamente de peixes, mas os pescadores eram mal considerados como cidadãos. Os fogões eram assim como pequenos fornos do modelo antigo, dentro das habitações, e permaneciam acessos durante todo o dia. O pão era um alimento básico, até porque o trigo era plantado por ali mesmo, nas redondezas das aldeias. O transporte era feito a cavalo e com carroças rudimentares, tracionadas por asnos e cavalos para levar gente e mercadorias de um lugar a outro. Era muito valorizado o artesanato manual (peças de madeira, barro, teares e ourivesaria).

Me espantei para lhes dizer, e este é o mote desta escrita, que aquilo que havia naquelas pequenas comunidades do interior, no início da era cristã, há cerca dois mil anos, não é muito diferente do que havia em nosso meio rural, aqui em Caçapava e no resto do Brasil, há cem anos: sem estradas que prestassem, sem carro, sem fogão a gás, sem rádio, sem lavoura mecanizada, sem luz elétrica, sem água encanada, com mobiliário extremamente rústico, dependendo da perícia de raros carpinteiros, que nem foi José, pai de Cristo. Nasci em 1950, e vivi dez anos da minha vida nessa situação. Faz muito pouco tempo, pouco mais de 50 anos.

Levamos quase dois mil anos para sair daquela penúria para a era da tecnologia e enorme aumento da produtividade de hoje. Somente depois da Segunda Guerra Mundial, que acabou em 1945, é que acelerou este nosso processo tecnológico, na indústria e nas comunicações.

Se a Maria Madalena e Jesus tivessem esperado para nascer dois mil anos depois… Não sei se o mundo seria o mesmo em 2021.