Parecia bem longe – o tão sonhado ano 2021 – quando, no longo e sombrio inverno, nós o sonhávamos como o libertador que viria livrar-nos da pandemia e abrir as portas das casas para os abraços, o ar livre, o trabalho e os amigos. Ele chegou sem alarde, mas renovando a esperança de que nos trará a libertação, a cura do malfadado vírus e a retomada de nossa vida normal.

É como uma manhã de sol depois de noites de tormenta, e janelas abertas, e varais cheios de roupa para secar nos restituem a alegria de viver. Crianças procurando seus amiguinhos para os brinquedos nas calçadas, nos parques, ou voltando alegres às suas aulas; trabalhadores recuperando seu lugar nas obras e valorizando o trabalho. E nós nem calculávamos antes como tudo isso era tão importante, e a falta que nos faria.

Agora, o primeiro mês já está na metade, e notícias boas e más continuam a acontecer. As boas são a vinda e a aplicação das vacinas, a cada dia mais próximas, mas com alguns percalços. E as más é que o mal está mais contagiante que nunca, e o mapa do Brasil, que já foi laranja e até amarelo, agora está quase todo em vermelho, e o Rio Grande do Sul também. As mortes diárias aumentam assustadoramente, e as vagas nos hospitais não dão conta da demanda.

Mas temos quase todos os meses à nossa frente para melhorar a situação. O que não estiver ao nosso alcance, podemos conseguir pela oração. Nunca rezamos tanto!

E o que podemos fazer é voltar aos nossos velhos hábitos, ou melhor, à incorporação de outros tantos que a pandemia nos legou. Um deles, muito arraigado desde que sou dona de casa era: só eu fazia as compras, providenciava consertos, fazia pagamentos e toda essa função de sair à rua, sem pedir a ninguém que fizesse por mim. Agora, mudei da noite para o dia. Encarrego outras pessoas para cumprirem essas obrigações. A umas, cabem os assuntos bancários; a outras, abastecer a despensa dos artigos do dia-a-dia; e, assim, fui-me transformando numa mulher caseira, mas com muita organização, previsão e planejamento para não sobrecarregar ninguém, nem fazê-los perder tempo fazendo caminhos supérfluos. Aliás, este era um hábito meu: antes de sair – quando eu saía –, fazia mentalmente o percurso de modo a chegar a cada parte seguindo uma linha reta que só ia para a frente. Nada de retornos que demandavam tempo.

Há tanta coisa para realizar que ficou só na vontade no ano que passou. Por isso, comecei este ano com uma ânsia de fazer tudo de uma vez só, mas me cansei. Acho que minha vida entrou numa nova fase. Pelo menos é o que dizem meus filhos: “Já correste muito por nós, agora é a nossa vez de corrermos por ti.” Acho que vou ler mais, ouvir música, conversar com as pessoas, presencial ou online, observar as flores, as nuvens, os pássaros e as crianças. Haverá programa melhor?

Mas uma coisa me incomoda um pouco. Quando saio, raramente, sempre encontro pessoas gentis que abrem caminho para mim, me cedem o lugar e até me oferecem o braço para subir algum degrau. Será que estão me achando velha? Se velhice é isso, até que é gostoso.

Desejo que a vacina chegue logo para todos nós.