Quando estava decidindo com que obra trabalharia em minha dissertação de Mestrado, optei por O Silmarillion, de Tolkien, por se tratar de (a) meu autor favorito e (b) uma trama densa, com diversas possibilidades de leituras e muitos ecos mitológicos. Durante meu percurso, acabei encontrando muitos mitos. Tudo começou com a busca daqueles com os quais a obra de Tolkien se assemelhava, e acabei desenvolvendo um forte apreço por mitologia num sentido mais amplo.

Outras obras que me chamam muito a atenção são aquelas releituras que contam uma estória já conhecida, mas desde o ponto de vista de outro personagem. Por exemplo, a gente sabe o que acontece nas estórias de fadas pela perspectiva dos mocinhos. Mas o que levou ao que aconteceu? O que o vilão nos diria se perguntássemos a ele? Esse personagem seguiria sendo considerado vilão se o ouvíssemos? (Não, não vou responder a essas perguntas hoje, ¡lo siento!)

Juntando esses dois interesses, no ano passado, quando a editora Rocco lançou A odisseia de Penélope, de Margaret Atwood (autora de O conto da aia e Os testamentos, livros dos quais já falei aqui), eu sabia que precisava lê-lo. Imagino que vocês conheçam a estória de Odisseu ainda que só de ouvir falar. Nesta obra, Atwood vai recontá-la do ponto de vista de Penélope, esposa de Odisseu, tendo como base vários relatos mitológicos tanto sobre a família de Penélope quanto sobre a estória em si, incluindo a Odisseia, de Homero.

A odisseia de Penélope é narrada em primeira pessoa, mas por narradores diferentes: a própria Penélope, que está no Hades e na contemporaneidade (o que lhe permite tecer críticas sobre nós, homens e mulheres do século XXI), e as doze escravas que foram assassinadas por Odisseu e seu filho Telêmaco. As escravas formam o coro, elemento tradicional do teatro e cuja função é trazer informações que ajudem ao público a entender as ações. A forma como o coro o faz é bem variada, podendo incluir, por exemplo, recitações, música e dança.

Dentre o que Penélope conta, estão os bastidores de seu casamento com Odisseu; sua vida em Ítaca durante a ausência do marido; conversas com seus pretendentes no Hades, o que lhe permite esclarecer suas verdadeiras intenções; e alguns sonhos que ela teve, mas que não aparecem em nenhum outro registro por ela nunca ter falado sobre eles a ninguém.

 

Referência: ATWOOD, Margaret. A odisseia de Penélope. Tradução de Celso Nogueira. 1ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2020. 128p.