Quem nunca soube andar de bicicleta, não é agora, aos setenta ou mais anos, que vai aprender. Foi uma falha na minha vida que não posso corrigir. Mas surfar é preciso, fundamental nesse momento, e as ondas é que nos ensinam, se tivermos coragem de enfrentá-las.

As ondas são contínuas, e cada qual mais ameaçadora que a outra.

Ondas de mães que matam seus filhos, empurrando-os de escadas, de sacadas ou jogando-os de janelas de ônibus. Mães que torturam, queimam, matam de fome, ou até assassinam e ocultam o corpo que ela própria gerou. Passamos semanas acompanhando esses fatos pela mídia, sentindo-nos afogados e sem poder reagir.

Ondas de guerras e extermínios no Afeganistão, refugiados procurando asilo, mortes de inocentes, desrespeito à vida humana, principalmente às mulheres, um modo de viver às avessas. Uma religião de fanáticos que promovem a violência em vez de amor. Que Deus é esse?

Ondas de guerra ao tráfico, com mortes de inocentes e contínuas explosões de revolta entre os atingidos, cuja única culpa foi a pobreza que os obrigou a morar em meio à bandidagem das favelas.

CPIs que nos revelam o outro lado do Poder. Cada dia, nova onda desmascarando quem devia zelar pelo bem da Pátria e de seu povo. Mas só fomentam a desunião e falta de um ideal comum.

Ondas de intrigas palacianas que se refletem na Saúde, na Economia, na Sociedade e na Educação.

E agora os incêndios em reservas florestais, atingindo áreas maiores que o território da cidade de Rio de Janeiro.

A água escasseando, o desemprego aumentando… O pobre já não pode pagar pelo gás de cozinha, a cesta básica chega às alturas.

O socorro que não chega a tempo para as famílias, a educação da prole, os planos para o futuro.

São ondas que nos oprimem, sem saber o que fazer.

Tantas outras ondas sufocantes que nos querem ver no fundo. Mas é preciso surfar. A cada dia, lembrar o valor da vida, o respeito ao próximo, o amor a Deus. Sentir que Alguém nos estende a mão e nos resgata do perigo da morte. Que não é só a do corpo, mas quando a alma desiste de lutar, é que acaba a chama da vida.

Lembro o salvamento de minha querida professora Noemy, muitas décadas atrás. Num banho da Lagoa da Charqueada do Dindo, ela de repente afundou, e a correnteza era forte. Em vão lhe atiraram bóias, alguém tentou nadar, mas em vão.  Seria outra vítima das águas. Então resolveram fazer um cordão humano e, assim, conseguiram chegar até ela. Coitadinha, pensou que a morte chegara. Mas quanto bem ela ainda realizou na vida, pois era uma verdadeira cristã, daquelas que sabem surfar e resolver os problemas de outros.

Por isso, a cada manhã, eu agradeço a vida e peço a Deus que me ensine a surfar para poder ajudar na reconstrução do mundo. Que ele seja melhor.