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Tio Tango

Tio Tango

A Gracinha, ali da Cinderela, contou-me que o Tango havia morrido, e ficou admirada porque eu lhe disse que não sabia. Não ouvira ninguém comentar.

No princípio, não me dei conta do quê ou de quem se tratava, e imaginei que fosse o “tango”, a música tradicional da República Argentina, que os nossos hermanos tanto curtem e veneram. Fui para o Google pesquisar a história do Tango de Astor Piazzolla, e descobri que tal estilo musical nasceu nos subúrbios de Buenos Aires, no final do século XIX, e que, lá por 1912, foi levado para a Europa por marinheiros franceses que passaram pela nossa América do Sul em viagem de instrução e se apaixonaram pelo novo rítmo derivado da romântica milonga.

Curiosamente, o tango mais famoso no mundo é La Cumparsita, que quase todo brasileiro já ouviu, e que foi composto por um uruguaio de nome Gerardo Matos Rodrigues há mais de um século.

Mas, depois, fiquei entendendo direito a triste notícia e confirmei que quem havia falecido, aos 99 anos de uma vida alegre de gaiteiro, foi o Jomar da Costa, o Tio Tango, filho de Cincinato Consuelo da Costa (o Seu Consuelo) e de Diva Alves da Costa, nascido e criado ali nos campos dos Costas, no coração do Durasnal caçapavano.

Quando guri, fui levado pelo meu pai para conhecer o Seu Consuelo, que era poeta e escrevia seus versos à mão em cadernos escolares de doze folhas, como se fossem pequenos livros manuscritos. Eu tinha em torno de 10/12 anos, e ainda tenho um exemplar desses, que ganhei naquele dia e que guardo com muito carinho. Decorei uns versos que diziam assim: “Aqui é o rio dos meus sonhos, o Irapuá caprichoso, murmura chorosas queixas, como um amante saudoso”.

Naquele tempo, o Tio Tango já era homem feito e solteiro, morando em casa com os pais. Tocava com grande perícia e desenvoltura uma gaitinha botoneira de oito baixos, voz trocada, que aprendera por si só. Animava pequenas reuniões, batizados, festas na capela e encontros familiares com alegria e gratuitamente, apenas por prazer e divertimento. Depois que veio para a cidade, com a urbanização geral ocorrida em Caçapava lá pela década de 1970, participava de eventos aos quais era convidado, principalmente, na Semana Farroupilha.

Morreu solito, solteiro por opção e preferência, já que oportunidades nunca lhe faltaram. O homem que toca e canta tem muitas facilidades. Chegou a contratar casamento (noivar de aliança no dedo), como se dizia antigamente, mas o casório nunca chegou a ser consumado, fruto de uma das suas gauchadas: num certo domingo, foi na casa dos futuros sogros para visitar a noiva e, em lá chegando, mais pra lá do que pra cá, no trago, assim que o velho abriu a porta, estatelou-se no chão da sala, e ainda sem um pé de sapato, que já havia perdido pelo caminho. A noiva não lhe apareceu naquele dia, e nunca mais lhe apareceu, diante do comportamento boêmio do Tio Tango em tempos de moço.

Registro os meus sentimentos à família e aos amigos, e lamento, junto com muitas outras pessoas, a morte de mais um gaiteiro da nossa terra.

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