Caminhando por uma feira de rua, encontrei um livrinho pequeno, capa dura revestida em couro marrom e com detalhes e letras em dourado. Essas me chamam muito a atenção pela simplicidade certeira. Claro que aquelas capas em alto ou baixo relevo, cheias de desenhos referentes às obras também me atraem, e muito, mas há casos em que menos é mais. E todo o cuidado por parte das editoras é pouco. O que o leitor vê ali é o primeiro indício do que pode esperar encontrar nas páginas, e ele não quer se sentir frustrado.

O livro era Moll Flanders, de Daniel Defoe. Naquela semana, eu tinha lido um texto que falava um pouco, e muito bem, sobre a obra, mas o que me levou mesmo a comprá-lo sem pestanejar foi a ‘apresentação’ da página 7:

 

“Venturas e Desventuras da Famosa MOLL FLANDERS & Cia.

que viu a luz nas prisões de Newgate

e que, ao longo de uma vida rica em vicissitudes,

a qual durou três vezes vinte anos,

sem levar em conta sua infância,

foi durante doze anos prostituta,

durante doze anos ladra, casou-se cinco vezes

(uma das quais com seu próprio irmão),

foi deportada oito anos na Virgínia

e que, enfim, fez fortuna, viveu muito

honestamente e morreu arrependida;

vida contada segundo suas próprias memórias.”

 

No prólogo, incluído por quem editou essas memórias, é dito que o objetivo de publicá-las é fornecer um exemplo a outras moças que se vejam em alguma situação como as em que ela se viu, e que Moll Flanders não é o nome verdadeiro desta mulher. Este, já na narrativa, ela explica que não dirá porque ainda tem algumas pendências e não quer ser identificada.

Sua mãe foi presa quando Moll era recém-nascida e, por curto tempo, ela foi cuidada por um parente; depois, viveu com ciganos, mas, aos três anos, fugiu deles, indo morar com uma senhora em uma espécie de orfanato onde as crianças aprendiam a desempenhar diferentes funções. Apesar de, desde pequena, o maior desejo de Moll ser se manter trabalhando por conta própria, aos 17 anos, com a morte da senhora e sem ver outra opção, ela vai morar com uma família para ser a dama de companhia de suas filhas. Tudo vai muito bem até ela se envolver com o filho mais velho, e o mais novo se apaixonar por ela. É aí que sua ruína começa.

Algo que me chama a atenção em Moll Flanders é a linguagem, como em toda obra antiga. Por exemplo, na ‘apresentação’, diz “a qual durou três vezes vinte anos”; na narrativa, dirá “três vintenas”. Isso significa 60 anos. Seria assim que apareceria em uma obra atual. Mas há também algo que me incomoda, e acredito ter a ver com a época em que foi escrito (1683): a forma como os homens são representados. Com exceção do filho mais velho da família com a qual Moll vai morar aos 17 anos, todos são perfeitos. Mesmo um de seus maridos, que era ladrão. Será que eu não peguei alguma ironia?

 

Referência: DEFOE, Daniel. Moll Flanders. Tradução: Antônio Alves Cury. São Paulo: Abril Cultural, 1981. 359p.