Nosso carro entrou numa estrada de terra, tranquila, naquela tarde ensolarada. Vegetação cerrada de ambos os lados. Poucas casas à beira da estrada.

De repente uma tapera nos chamou a atenção. Minha filha, que era a motorista, desceu para fotografá-la.

Já quase destelhada, com as folhas da janela balançando ao vento, a alvenaria se deteriorando.

Ainda dava para ver que fora branca, com as janelas azuis muito descascadas. Ervas daninhas a sufocavam, e até as árvores com galhos secos acompanhavam aquela decadência.

Imaginei-a ainda com vida, nos dias alegres e movimentados. Com seus donos agindo, seguindo o ritmo dos dias e o descanso das longas e silenciosas noites.

Por que estaria assim nesse atual abandono, tão triste em meio àquele matagal?

Deu-me vontade de chorar.

E entre as lágrimas eu entrevi a “outra casa”, a nossa de veraneio na infância e juventude, na Charqueada do Paredão.

Hoje tapera, também, pelo que ouço contar. Nunca mais quis voltar lá.

Prefiro imaginá-la com toda a vitalidade, tendo as flores de seu jardim colorindo e perfumando o ambiente, rodeada de verdes cercas-vivas. E o melancólico “coqueiro do lado que de saudade já morreu”.

Do alpendre divisava-se parte da cidade de Cachoeira. As torres da antiga Matriz, um longo pedaço do rio Jacuí, que serpenteava para nos oferecer o espetáculo do pôr do sol tão belo.

A casa era de alvenaria, pintada de branco, com janelas largas, sempre abertas naqueles dias quentes de verão.

Na sala, móveis recobertos de chitão, o divã com aquele couro de jacaré que nos intrigava.

Depois, a ampla varanda de dois pisos. Tinha no primeiro dois consoles antigos, que ostentavam jarrões com flores campestres. Descendo um degrau, a grande mesa e os guarda-louças altos, com vidros pintados.

Naquela mesa, as delícias dos cafés da manhã: o pão sovado inigualável, as chimias de melão, pêssego, goiaba… E mais a manteiga da dona Clementina,  a vizinha alemã que nos enviava enrolada numa folha de parreira.

O almoço e o jantar eram costumeiramente servidos ao ar livre, na mesa de pedra, embaixo de um copado cinamomo.

No terreiro, varrido diariamente, ficavam as figueiras majestosas com os troncos salientes, onde brincávamos. Também serviam de suporte para o balanço, preso com grossas correntes, que servia até de cama para uma sesta.

Galinhas, patos, perus e gansos circulavam livremente por ali, recolhendo-se ao entardecer a seu abrigo, no bem planejado galinheiro.

Meu petiço empacador vinha até a porteira da frente querendo participar das brincadeiras.

Mas o que dói mais no coração é a falta, a saudade daqueles figurantes que enchiam a casa de vozes, de movimento na lida caseira. A minha Dinda de avental fiscalizando, dando ordens. A Dadá ligeirinha na “santa ajuda” diária. Dindo com a enxada em punho tirando ervas do jardim. Zezé numa espreguiçadeira descansando de suas dores.

Mamãe atendendo os filhos menores, trocando roupas, consolando-os de algum dissabor infantil.

Só em sonhos volto lá. E sinto como no soneto de Afif Jorge que “aquela tapera onde não moro, ainda é o meu lar”.

 

Maria Augusta S. Alves
21.10.2017