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Crônica do Dia a Dia – Bonitinha, mas… – Maria Augusta Alves

Crônica do Dia a Dia – Bonitinha, mas… – Maria Augusta Alves

Este fato é real e aconteceu há bastante tempo. Apenas dei umas “enfeitadinhas” nele.

Jarbas chegou triunfante na cidade natal. Jovem, promissor engenheiro, com o escritório do pai funcionando, tinha tudo para dar certo.
Além disso, boa estampa: alto, atlético, bem humorado. Movimentaram-se tias e madrinhas apontando-lhe possíveis candidatas para compartilhar sua vida.

– A Ivonete sabe até tender pão

– Mas a Jacira faz colchas de tricô redondo.

Ele sorria divertido. Atributos desnecessários. Queria amar de verdade.

Uma tarde, num clube campestre local, viu uma figurinha que o atraiu. Uma morena de shortinho branco, linda, bronzeada, esbelta. Era a Betinha.
Iniciaram ali uma relação que foi progredindo em festas e reuniões dominicais. Era a verdadeira gatinha manhosa de seus sonhos.

No entanto, foi alertado por sua mãe:

– É filha única do comandante do Batalhão. Mimosa demais. Dizem que não lava nem as calcinhas, Conselhos numa fase de encantamento entram por um ouvido e saem pelo outro.

Ele a desejava ardentemente. O romance de verão avançou até o “sim” no altar.

Lua de mel sensacional numa praia paradisíaca do nordeste.

Na volta, a instalação do ninho e o brinquedo de casinha começaram.


Jarbas ria quando na mesa aparecia couve-flor crua e chicória bem cozida no almoço.


– Ordem da patroa, justificava a nova empregada.


Quando a tinha nos braços, naquela cama coberta com macios lençóis, ele esquecia as camisas mal passadas, as bermudas manchadas de Kiboa, as grandes contas do Salão de Beleza, a despensa com falta dos principais gêneros. No entanto, sentia falta da mulher na mesa do café da manhã. Ela sempre pedia que a deixasse repousar mais um pouco.


Num dia, já estava no carro e precisou voltar apressado para pegar um projeto que

ficara esquecido no quarto.

Encontrou, como esperava, Betinha enrolada no edredon. Só que, ao aproximar-se mais, levou um choque. Viu sua bem-amada, com os olhos semi-cerrados, brincando displicentemente com uma mecha dos cabelos. Mas, na outra mão segurava algo que o deixou pasmado. Podem acreditar: era uma mamadeira cheia de leite com Nescau, que ela sorvia lentamente, com ar de beatitude.



Maria Augusta Alves

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