Não desconfiem de minhas faculdades mentais. Estou atualizada, sim, e acompanho os progressos que as mulheres têm alcançado em nossos dias.

Acontece que, arrumando prateleiras de livros, encontrei um da Coleção Feminina, editado em 1968.
E pude medir a distância que nos separa dos meados do século XX.

Umas pérolas na introdução:
“Amar é ter por mira a felicidade do amado, subordinar-se a ele, agir e se devotar para o seu bem.”
“O amor transforma o sacrifício em alegria.”

E os conselhos:
“Você fica em casa, esperando que o Príncipe Encantado caia do céu? Você vai morrer solteirona. Conviver e aparecer é um dos segredos para arranjar casamento.”
Aí, manda frequentar igreja, festinhas, cinemas, etc.
Fala do baú ou arca da noiva. A quantidade de peças essenciais para uso próprio e da casa arrebentariam o bolso de qualquer uma.
Só um exemplo: para o noivo, recomenda uma dúzia de pijamas.

Fiquei rindo, lembrando um rapaz de nossa atualidade que teve que chegar a uma loja e comprar dois pijamas, antes de baixar num hospital para uma cirurgia.

– Como os tempos mudam, diria minha tia-avó Lula, dando um suspiro.
Preocupa-se também a autora com o trauma psicológico da noite de núpcias.

Existirá hoje este problema?

Duvido muito. Além de bem informadas por leituras, novelas, filmes, palestras, têm as moças nos sucessivos namoros o avanço de suas relações sexuais.

Outra curiosidade deste manual antigo é a recomendação de que se a mulher for mais inteligente e preparada do que seu candidato, deve fazer-se de burrinha para não humilhá-lo.

Conceitos que as mulheres do século XXI abominariam e tratariam como piadas.

Elas que não ficam à janela esperando um cavalheiro para levá-las ao altar, que assumem posições e chefias, cuidando de sua formação intelectual, desejam a liberdade de agir, conforme as circunstâncias.

E ainda acham que está longe o ideal desejado, a igualdade dos gêneros, nos salários e no respeito que merecem.
Muitas reivindicações justas, mas neste meio século de distância, a meu ver, muita coisa ficou perdida.

A doçura da mulher, o seu recato e certas normas de conduta que mais condizem com a sua natureza.


Maria Augusta S. Alves