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Crônica do Dia a Dia – Da minha janela – Maria Augusta S. Alves

Crônica do Dia a Dia – Da minha janela – Maria Augusta S. Alves

Estou no meu apê portoalegrense passando uma temporada. Gosto daqui no inverno. No verão, não aguento o calor intenso desta capital.

Não saio muito, como há anos atrás. Antes pegava uma lotação, ia para o centro, os shoppings mais distantes, cinemas, sem precisar de companhia. Agora os filhos me vigiam. Sair? Só de carro com eles.

Mas minha curiosidade não diminuiu. Posto-me, então, à janela que dá para uma rua movimentada e fico observando as pessoas passarem e suas atitudes.

Na minha calçada, que é bem larga, há um frondoso Ipê Roxo. Na primavera é lindo vê-lo florido. Agora, sisudo, está vestido de inverno, mas conserva as folhas, e seus galhos abrigando pássaros, avançam até o meio da rua.

Uma mulher ainda jovem, de botas longas e uma surrada jaqueta, fuma enquanto espera sua condução. Impacienta-se, apaga o cigarro com o pé e olha ansiosa, mas não passa nada…. Também, a cidade está descansando, bem no meio da semana, pois é feriado de Corpus Christie e tem a aparência de domingo.

Devagar passam pessoas, de idades variadas, levando seus cães para o passeio. E muitos com roupas esportivas aceleram os passos nas caminhadas e corridas, que se tornaram hábitos diários.

Fregueses entram na padaria bem embaixo da minha janela, buscando o pão quentinho para o café da manhã. Uma senhora idosa tropeça e é amparada pelo vigia. Sua sacola se abre, e rolam laranjas e tomates pelo chão.

Estaciona uma kombi ralada, e o carona desce para recolher papelões e caixas, que estão separadas do lixo orgânico.

Na outra calçada, sob o toldo da parada de ônibus, duas senhoras sentam e conversam. Estão cheias de pacotes e agasalhos nos braços. Conformadas, instalam-se prontas para a demorada espera.

No entanto, na sinaleira da esquina, motoristas impacientes buzinam a qualquer vacilo do carro que está a sua frente.

Saí do meu ponto para atender repetidos toques de campainha. Que surpresa agradável! Parte da família chegou para o café da tarde, e a bisnetinha Rosa, acordando, já sorri para todos. A mesa foi posta no terraço, pois estava uma tarde de sol. O bolo do vizinho CARAMELO fora providenciado. O aroma invadiu o ambiente. Bolo Mármore, com cobertura de chocolate.

Risadas e conversas foram interrompidas por um barulho forte. Corremos para ver o que tinha acontecido. Gente chegava e tapava nossa visão. Conseguimos ver, enfim, um jovem imóvel estirado no canteiro do outro lado da rua, e sua moto estraçalhada mais distante. E um carro branco meio atravessado na calçada. Mais um lamentável acidente que os jornais noticiam todos os dias.

Chegou um carro da polícia, depois o Samu, e a gente sem saber o estado em que estaria aquele jovem alto e magrinho, que nem se mexia. Não morreu, porque procuramos notícias e nem apareceu o acidente da nossa rua.
Assim, minha janela, que começou o dia com tranquilidade e de um jeito banal, terminou com tragédia, que é mais uma na estatística da grande metrópole.

Minha janela não teve os lances indiscretos do Mestre do Suspense, o famoso Hitchcock. Sinto muito se desapontei meus leitores.

 

Maria Augusta S. Alves

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