De todas as faxinas do ano, penso que a faxina da primavera é a mais ampla. Pois inclui as mudanças de roupas de um armário ou prateleira para outro – que eu chamo de transbordo – engavetando os agasalhos pesados e deixando à mão o que se pode usar nesse tempo de temperaturas amenas… E mais isso: abrir as portas e gavetas, deixar entrar o sol na casa e tirar o ar de mofo que o inverno deixou.

Na primeira semana de setembro troquei o cobre-leito – o de inverno, de cor escura – para dar lugar ao verde cheio de florzinhas, com a cara da estação. É um costume que me acompanha: vestir a casa de modo temático. No forte do verão, minhas colchas são ou verde claro ou azul pálido. Então, entrando no quarto, sinto aquele frescor, principalmente quando o estampado é de hortênsias.

Sempre na época em que estamos eu lembro um romance que li ainda jovem estudante. Acontecia numa casa com três irmãs de meia-idade, que ficaram para titias, e mais a empregada Rosália, também solteirona. A mais velha, Tecilda, mandava, e as demais obedeciam. Tudo ali funcionava como um relógio suíço, e as faxinas de primavera tinham um ritual que durava mais de uma semana.

Nesse intervalo, nenhuma visita era bem recebida. A casa ficava de pernas para o ar. Devido ao clima da Inglaterra – frio e com pouco sol – onde se desenrolava a história, as roupas pessoais e as da casa eram retiradas de seus armários, lavadas e depois secadas à custa de aquecedores a brasa. Uma trabalheira danada! O pior é que cada uma das irmãs tinha um baú com seu enxoval completo que nunca fora usado – pois faltou o noivo. Eram de uma família respeitável que recusara os prováveis pretendentes às moças por não considerá-los à altura. E elas foram ficando, ficando, e ficaram.

Pois bem, não é que eu encontrei anos depois, em Salvador, na Bahia, protagonistas de uma história semelhante? Raquel Leal foi uma de minhas companheiras de viagem. Seu irmão, que morava no Rio, era general do Exército. E falou com um general seu amigo, o Dantas, se não me engano, no nosso passeio. Ele disse que tinha umas primas lá e escreveu um cartão para elas nos receberem em sua casa.

Depois de vários dias em Salvador, lembramos de telefonar às “meninas” do General. Elas nos convidaram para um lanche que com especiarias baianas como acarajé e muitas frutas e sucos naturais. Um banquete tropical! Muito amáveis – eram sete – foram contando fatos de suas vidas. Todas tinham seu baú com enxoval, muitas peças com bordados lindos feitos pelas mais “prendadas”, e todas jamais usadas. Uma pena! Aconteceu com elas o mesmo que às meninas do romance que li há anos. Os pretendentes não estavam à altura, depois a idade foi chegando, e elas ficaram para titia. Chamou-nos atenção uma delas, a mais calada, Dava para ver que fora bonita e parecia tristonha. Imaginamos que sofrera algum amor contrariado. Quem sabe?

A Primavera tem dessas coisas. Ressuscita até as lembranças antigas. E faz pensar que o que passou, passou, mas não podemos deixar passar o momento, o agora.

Anna Zoé Cavalheiro