Há décadas atrás, lembro dos carnavais vividos com gosto, sem ostentação, sem nudez e com marchinhas imortais:

“Se você fosse sincera.
Ô ô ô, Aurora…”
“Com pandeiro ou sem pandeiro,
Meu amor, eu brinco.”
“Quanto riso, oh!
Quanta alegria!
Mais de mil palhaços no salão…”
“E as pastorinhas
Pra consolo da lua…”
“Ala-la-ô…”

Não dá para esquecer. Seus autores tão inspirados, tão poéticos, não existem mais, porém o povo ainda os relembra.

Em Cachoeira, onde eu residia, havia os famosos corsos. Carros alegóricos muito lindos, bem decorados, com seus blocos em cima atirando confetes e serpentinas.
Bem pequena fui uma das crianças integrantes das “Holandesas”. Desfilamos fantasiadas com a roupa característica desse país e com seus tamanquinhos duros que nos judiavam os pés. Mas tudo era encantamento.

Já quase adolescente eu e uma saudosa amiga enfezamos nos bailes infantis, vestidas de “Jardineiras”. Fantasia de tafetá rosa, com uma cestinha de flores douradas. Também relembro a minha “Tirolesa”, com as meninas vizinhas da Andrade Neves.

E tantos, tantos outros carnavais!

Imaginem que naquela época os pais compravam para a criançada, além dos saquinhos de confete, um poderoso lança-perfume. Meu Dindo me trazia um de metal dourado, porque os frascos de vidro eram perigosos, podiam quebrar e causar ferimentos.

Era livre esse comércio, e o único perigo seria receber um jato nos olhos, pois ardia muito.
Lembro de uma tarde enquanto esperava a família aprontar-se, sentada num portal eu mirava e acertava um jato daqueles nas formigas, em carreiro, que passavam por ali.

Havia a terça-feira gorda em que os foliões mais animados iam de casa em casa e puxavam as pessoas para a rua, do jeito que estivessem E aquele bloco esquisito e peculiar ia crescendo e saía em direção à Estação Ferroviária para esperar o trem da 1h e 16 minutos.

Algumas senhoras da sociedade, cujos maridos não eram carnavalescos, criaram num carnaval o bloco chamado 50%.

Minha Dinda era uma delas. A fantasia de mexicana – vestido longo de babados coloridos e um chapéu preto de abas largas com medalhas penduradas – era muito vistosa e bonita.

Algumas noites, elas saíam lá de casa, e eu ficava admirando-as e depois ainda sentia os suaves perfumes que deixavam no ar.

Os clubes contratavam mais de uma orquestra para aguentar a folia até o raiar do dia.

Não sei se as noites de Momo eram melhores do que as de hoje, mas tudo na infância e na juventude tem uma magia que perdura no coração para sempre.

Maria Augusta S. Alves