Era domingo, e as famílias descansavam em suas casas, segundo o costume na cidade da campanha. Depois do almoço, no pátio ensolarado, ficavam saboreando laranjas, antes de se renderem a uma boa sestiada. Tudo calmo, sob um céu bem azul.
Mas a vida nem sempre é um lago sereno, previsível.

Eu era uma menina com pouca experiência da vida. Mas já sentia meus medos. De perder meus pais, meus irmãos, meus amigos… Desejava para nós uma morte coletiva, ao mesmo tempo, para não haver saudade. Mas por isso mesmo sentia um certo pavor nas viagens de ônibus nas estradas lamacentas de então. Será que é agora?

Lembro daquela tarde como algo que me marcou para sempre.

De repente, um burburinho na cidade, foguetes, gritos, bandeiras desfraldadas quebrou a quietude da tarde. Era o time de futebol dos moços mais festejados que ia jogar na cidade vizinha. Corremos à porta para acenar-lhes e desejar a vitória. Foi só um momento, e a cidade voltou ao sossego.

Uma hora depois o cenário mudou. Acordados de suas sestas, todos corriam para colher notícias e ajudar. Um desastre nas curvas da estrada. E aquele jovem bonito, que as mocinhas casadoiras admiravam foi a única vítima fatal.

Talvez por isso eu sinta até hoje uma tristeza ao passar por aquele trecho de rua. Naquela tarde – ou pouco depois, não lembro bem – reparei no cipreste ao lado da sua casa, a própria imagem do desespero. Desde então, não consigo gostar dessa árvore que não abre os braços, só clama aos céus, mas sem esperanças.

As casas também são tristes, conservadas do mesmo jeito de então. Nela moraram senhoras de luto, viúvas, que eram costureiras ou bordadeiras. Adelaide, Mercedes… Nomes que não se põem mais em recém-nascidas. Uma delas era a mãe do moço que morreu.

Aquela morte abalou toda a cidade. Não foram poucos os gestos de conforto prestados àquela mãe dolorosa.
Hoje é tão comum saber que jovens morrem todos os dias pela violência urbana. Não há tempo para lástimas, a morte tornou-se banal. A vida baixou seu preço.

Hoje é tão comum saber que jovens morrem todos os dias pela violência urbana. Não há tempo para lástimas, a morte tornou-se banal. A vida baixou seu preço.

Anna Zoé Cavalheiro