O dia estava muito frio. O vento teimava em arrancar a minha echarpe do pescoço, colocada para minimizar a queda da temperatura.

Entrei no meu banco. Coisa de rotina, precisava fazer uns pagamentos. Mas ele estava abarrotado como é comum nos primeiros dias do mês.

Na ante-sala, onde estão os caixas eletrônicos, as filas eram enormes. Clientes de todos os tipos com seus cartões a postos. Alguns com boletos para pagar, saques, transferências de valores.

Agora é preciso retirar a senha, pensei. A minha é a de idoso, mas há muitos desta faixa lá dentro, que ficam sentados à espera de serem atendidos pessoalmente.

Vou perder algumas horas, na certa.

Noutra ala de cadeiras estão os de menos de sessenta anos observando o painel eletrônico. A não ser alguns velhinhos que já vêm acompanhados, os outros sabem bem toda a sequência daquele ritual bancário…

Distraio-me observando gente, coisa de que gosto. Moços de ambos os sexos usam, na maioria, jeans e jaquetas de nylon. É quase um uniforme. Os mais velhos, um vestuário mais pesado, como casacões, mantas e gorros.
Os clientes do interior não dispensam a velha bombacha, com cinto de fivela e lenço no pescoço. Gaúchos da nova geração usam bombachas mais estreitas, botas longas e muitas vezes boinas ou chapéus.

Os funcionários dos guichês, pacientes, resolvem as questões de cada um, simples ou intrincadas. Um deles consulta, seguidamente, seu relógio de pulso. Deve estar com fome, e ainda tarda a hora do almoço.

De repente meu pensamento volve para o passado e fico imaginando meus ancestrais, e até meu pai, entrando neste banco contemporâneo. Esta tecnologia toda, os cartões, as senhas com números, com letras, este pronto-atendimento para verificar saldos, extratos… Os depósitos em envelopes, a maneira de imprimir cheques, tudo enfim.

E na minha memória me vem o Banco da Província de outrora.

A tia Dulce, irmã do seu Dário Alves, no balcão com um livro enorme onde apontava os débitos e créditos.
Eu era criança, mas lembro tão bem! Depois, a presença da saudosa Elza Alves, naquele trabalho burocrático, amenizado com suas palavras gentis e seu sorriso.

Os gerentes tinham à sua volta os mais assíduos e afortunados clientes. Negócios de gado, de terras e também um papo amigo com os “causos” recentes.

Revejo o simpático gerente João Pignataro e, mais recentemente, seu Macimino, com seu bom humor, chamando os funcionários por apelidos: “Vem cá, Vasco da Gama, procura aquele documento…”

Na pressa de hoje não caberiam estas brincadeiras.

Pois de repente, em meio a esta eficiência, tudo parou.

– Mandrake, como diziam meus filhos.
– O que houve? Perguntei.
– A Internet saiu do ar. Nada mais funcionou.

Fomos traídos pela modernidade.

Maria Augusta. S. Alves