A vida era outra no tempo de nossos pais. Eles se preocupavam em manter a família, educar os filhos, cuidar de sua saúde, garantir-lhes uma preparação para o futuro. Ou uma herança. Os nossos deixaram-nos a educação. Essa nos levou à vocação de vida, ao sustento, ao nosso modo de ser e agir como adultos.

Suas responsabilidades resumiam-se em pagar as dívidas do mês na farmácia e no armazém – essas anotadas em cadernos – e poupar o que pudessem para as emergências ou algum regalo desejado pela família.

De onde saía a verba do Governo que pagava salários, alocava recursos para obras públicas ou destinava ao agro-negócio e socorro à indústria e demais empreendimentos do Estado, era questão fora de preocupação dos cidadãos. Bastava-lhes ficar em dia com os impostos. O resto eram assuntos da Administração Pública e suas secretarias.

Hoje, não. Os noticiários não cansam de anunciar a bancarrota das finanças públicas. O Estado deve mais do que recebe. Não se fala só em milhões. Agora são bilhões que nossa geração não verá saldados enquanto vivermos. E isso nos causa uma angústia! Sentir o problema que nos afeta, mas não saber como solucionar. Ficamos impotentes à espera do próximo pagamento de salário – não sabemos quando e quanto será depositado em nossa conta. Não sabemos, nem podemos adivinhar, quando as obras inacabadas serão concluídas para o bem da comunidade.

Enquanto isso, as preocupações nos tiram o tempo de admirar o que ainda temos de bom ao redor; de olhar o cenário do outono, as paineiras cheias de flores; os jardins florescendo a cada pancada de chuva; o ar morninho das noites. E as criancinhas da família crescendo, aprendendo a andar, falar, a fazer artes.

Também nos faltam ocasiões de parar, refletir, lembrar. Meu subconsciente reage, e eu sonho com pessoas que foram parte de minha vida, ou fatos que me comoveram.

Uma figura me surge insistentemente à lembrança. É um aluno meu da escola noturna de alfabetização, pretinho como o Negrinho do Pastoreio, mas de olhos matreiros qual o Saci Pererê… Parecia estar gozando com alguma piada. Terminou o ano, e ele não chegou ao fim do processo.

Um ano depois retornei àquela cidade para votar (meu título eleitoral ainda não fora transferido) e o menino estava lá, no seu local de trabalho de bagageiro, sentado num tamborete à frente da Rodoviária, com um jornal aberto nas mãos. Viu-me e seu olhar disse tudo, e eu na ocasião não entendi.

Até hoje me arrependo do gesto que deixei de expressar. Ele, tão calado, queria comunicar-me que já sabia ler…
Por isso, deixando as preocupações para os responsáveis resolverem, aprendi que o melhor da vida é viver o presente com quem está ao nosso lado, a quem devemos ajudar e de quem podemos receber, ou simplesmente, conviver prazerosamente com nossos semelhantes.

Anna Zoé S. Cavalheiro