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Crônica do Dia a Dia – Quebrando a rotina – Anna Zoé Cavalheiro

Crônica do Dia a Dia – Quebrando a rotina – Anna Zoé Cavalheiro

Aos poucos vou percebendo que o nosso dia-a-dia atual está mudando. O que se planeja para hoje muitas vezes precisa sofrer alguns cortes ou mudado inteiramente, pois novos fatos acontecem, e é preciso improvisar.

Atualmente vivemos tanta coisa inesperada! Certa manhã, que eu pretendia aproveitar para uma tarefa doméstica sempre adiada, recebi a notícia de que alguém – o filho de uma grande amiga falecida – estava chegando para conhecer-nos, a mim e a minhas irmãs, pois éramos muito chegadas. Casada com um carioca, morava no Rio, e nossos contatos se faziam por carta ou telefone. Nas datas de aniversários nossos e os dela, as felicitações entre nós não faltavam. Quando deixaram de acontecer, ficamos apreensivas. Algum tempo depois, soubemos que falecera.

Eis que seu filho Tony, que ela citava carinhosamente em suas cartas, resolve conhecer as amigas gaúchas de sua mãe, que a querida Neusa, filha única, considerava suas manas. Tony veio ao Sul com a esposa, como um peregrino buscando conhecer as pessoas e os locais onde sua mãe viveu aqui em Caçapava.

Mas as horas foram passando, e nada dos viajantes. O almoço que eu começara a planejar com muitas dúvidas – o que fazer? O que falta comprar no Supermercado? Já na porta de saída, o celular do moço comunicou que iam atrasar, pelo trânsito, com bloqueios na estrada e muito movimento de caminhões. Então, de almoço passei a pensar em um lanche para a tarde, e as compras já eram outras. Que sufoco!

Pensei como é importante a gente ter em casa um pacote de massa de prontidão e carne, naturalmente, além de molho de tomate. E para o lanche?
Mas eis que eles chegam e combinam encontrar-nos à frente da Igreja Matriz, nosso imponente templo. Ao primeiro olhar, reconheci nele o olhar da mãe. Daí foi como se nos conhecêssemos toda a vida. Sua esposa, uma doçura, também conhecia a história da família. O moço bateu fotos da igreja dizendo que ali seus pais se casaram.

Depois visitou a casa onde seus avós com a filha moraram alguns anos. Mais tarde, em torno da mesa onde faziam o seu lanche – eles ainda não tinham almoçado, e nossos restaurantes já estavam fechados, ou com a comida fria!…- ficamos conversando como velhos amigos, emendando as lembranças de sua mãe, nós contando fatos de nossa meninice e juventude compartilhadas, e eles seus últimos anos, as doenças, as perdas de familiares, e o apego ao filho que a acompanhou até o fim. Nas poucas pausas, era como se sentíssimos a presença daquela pessoa tão amorosa, leal e querida, entre nós.

Ganhamos novos amigos, e até hoje não têm cessado nossas comunicações quase diárias via internet. Ficamos gratas em saber que a Neusa teve o carinho e a dedicação de seu amado filho nos seus últimos anos.

Obrigada, Tony e sua Cláudia! Com vocês foi possível fechar com chave de ouro a história de uma vida que nos marcou com tanta ternura.


Anna Zoé Cavalheiro

13/10/2017

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