Aos poucos, a cidade vai mudando de feição. Onde era a casa de Dona Frida Lang, agora é o prédio da Caixa Econômica. A morada da família Abascal virou uma obra gigantesca, um edifício de vários andares. Não sobrou nem o lar de minha família, na Rua Sete de Setembro.

Aos poucos, também, a gente vai acostumando com as novidades e achando que assim foi melhor. Não dá para viver no passado.

Mas, certa manhã, tive uma grande surpresa: o prédio do antigo Colégio SS. Nome de Jesus”- hoje Instituto Municipal de Educação – que fica na esquina da Rua General Osório com a  Júlio de Castilhos, estava só com as paredes externas em pé. E que paredes! Parecem  uma fortaleza.

 Fiquei lembrando que ali foi a escola primária das Irmãs de Notre Dame, onde estudei até a quinta série. Recordei as professoras de então e os colegas. Elas ainda com o sotaque de alemãs, porém dando conta de sua profissão. A Ir. Valtéria, de pronúncia carregada de erres, era ótima em Matemática. Um pouco mais tarde veio a Ir. Luciana que dava boas aulas de Português. A Irmã Gregória, diretora do colégio, mantinha os alunos na linha com sua rigidez que metia medo.

Certa vez, nosso colega mais problemático portou-se mal e foi desaforado com a Ir.Elmara, a  mais jovem delas e talvez por isso  a única que não conseguia fazer-se obedecer pelos alunos mais levados.

A coitadinha quase chorou e, vendo que não conseguia as desculpas do aluno, saiu da sala e dirigiu-se ao gabinete da Diretora. Este ficava na outra extremidade da quadra, na esquina da Rua Borges de Medeiros. Havia um corredor imenso que ligava as duas casas, a da escola e a outra com os dormitórios das alunas internas e a clausura das Irmãs.

Nós ficamos sozinhos, na aula. E o colega começou a ficar nervoso para enfrentar a Ir. Gregória. Dirigia-se a uma das janelas, que dava para a rua, e calculava se poderia pulá-la para escapar. Mas a altura até a calçada o desanimava. Depois voltava e ficava  caminhando no corredor, pensando em arrombar a porta da rua. E nós naquela tensão, torcendo por ele, afinal, éramos colegas. Até que a Ir. Elmara chegasse à Diretora, e as duas voltassem, passou-se um tempão que parecia não acabar.

Quando ouvimos os passos das duas aproximando-se, foi aquele suspense. E qual não foi nossa surpresa ao ver que o colega optou por enfrentar a “fera”.

Não ouvimos o que se passou entre eles. Mas a partir daí nosso colega teve de procurar outra escola.

De lá para cá, o prédio mudou para melhor. Em vez daquele corredor escuro e comprido que me lembrava as catacumbas dos primeiros cristãos, foi-se erguendo o edifício de dois andares que abrigou Jardim da Infância e Primário, ainda das Irmãs, e também o Curso Normal Regional. Mais tarde a Urcamp, e hoje este magnífico Instituto de Educação.

Foi um grande passo para acompanhar as mudanças da sociedade, mas a saudade ainda bate em mim, quando penso que dentro daquelas paredes pulsaram muitos coraçõeszinhos curiosos para aprender a viver, e na expectativa de um futuro feliz.

 

Anna Zoé Cavalheiro