Select Page

Crônicas do dia a dia – A casa de samba – Maria Augusta S. Alves

A casa destoava na rua elegante. De esquina, porta e janela, fachada maltratada, sem pintura. Toda fechada. Uma leve batida, e o porteiro abria. Era o boteco da moda, onde se ouvia um legítimo samba. As mesas, juntas um das outras, eram disputadas. Fumaça de cigarro empestava aquele ambiente alegre.

Apesar do aperto, da falta de conforto, a gente se sentia bem ali. Dois violões e uma voz melodiosa entoavam um sambinha do Lupicínio. O pessoal cantarolava junto. Garçons circulavam com dificuldade trazendo bandejas com coisas apetitosas. Bolinhos, batata e aipim fritos, algum à la minuta, cervejinha gelada e refrigerantes com limão e gelo. Nas paredes, letras de velhos e consagrados sambas: – E a lua furando nosso zinco…-Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com minha dor…- Quem não gosta de samba…

Casais apaixonados beijavam-se embalados pelos gostoso ritmo. Outros não tiravam os olhos dos músicos, bebendo-lhes as palavras. Tudo gente boa unidos pela música.

A um canto, numa mesinha encostada à coluna próxima, uma mulher de meia-idade curtia as melodias bebericando algo colorido num copo alto. Melancolicamente só. O cabelo tingido em mechas loiras era bem cuidado e estava escovado. Ela não olhava em redor. Apenas cantarolava baixinho. Mais tarde, chamou um dos moços e fez um pedido. Veio um prato de sanduíche aberto. Não se apressou em comê-lo.

Pensei que talvez não tivesse ninguém a sua espera em casa. A solidão parecia ser sua companhia habitual.

Atrás dela, noutra mesinha semelhante, um pouco oculta pela coluna, um homem também só bebia sua cervejinha. Quieto, sem ao menos tentar acompanhar as bonitas letras. E você era a princesa que eu quis coroar… Chico havia criado, e o cantor passava aquela poesia pura aos ouvintes.

A solidão daqueles dois me pesava. Estávamos num grupo divertido, fazendo pedidos de sambas em guardanapinhos de papel. De repente, eu tive vontade de apresentar um ao outro. Quem sabe não se identificariam: E o quanto teriam em comum! Fiquei entristecida pensando: “A vida é mesmo uma procissão de desencontros”.
Maria Augusta S. Alves

Sobre o(a) Autor(a)

Previsão do Tempo

TV Gazeta – Mil Edições