Alunos participam do círculo de alfabetização

 

Baseado em modelo português, projeto implantado na Escola Eliana, no Bairro Floresta, aposta na aprendizagem pela curiosidade, pelo prazer da descoberta, e integrada ao cotidiano

Você já imaginou uma escola sem divisão por séries, turmas, nem pela idade dos estudantes? E se o importante não for ensinar algo, mas sim aprender? É assim que funciona o Escola da Floresta, projeto de extensão implantado na Escola Eliana Bassi de Melo e que atende crianças e pré-adolescentes entre seis e catorze anos.

O nome vem do bairro onde fica a escola e onde moram muitos dos alunos e dos tutores que os auxiliam. O projeto nasce de um anseio que acompanha Bruno Emílio Moraes, um dos responsáveis pelas tutorias, desde a infância.

– Sempre gostei muito de aprender, de ler, e nunca gostei da escola. Eu pensava: será que a escola precisa ser este ambiente onde o que mobiliza é o medo de reprovar? As crianças não estudam o que estudam porque elas têm prazer de aprender, elas estudam porque elas têm medo de reprovar. Enquanto pai, vejo que as crianças têm sede de aprender. Por que a escola tem que ser um ambiente de dor, onde o que move as crianças não é esse mesmo prazer espontâneo, mas a obrigação? É difícil manter o prazer por uma coisa quando faz porque tem que fazer. A partir disso, me dei conta de que, enquanto a gente tiver uma lista de conteúdos pronta antes de ter as crianças, em síntese, pode-se dizer que a criança pouco importa, o que importa é a lista – analisa.

Formado em História – Licenciatura pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Bruno foi professor do ensino fundamental, e conta que queria fazer algo diferente, mas não sabia como. A resposta veio quando ele fazia sua pesquisa no curso de Mestrado em Educação Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) sobre comunidades alternativas e as formas de educação que surgem nessas comunidades.

– É uma aprendizagem que não separa do cotidiano a criança, ela é imersa na vida. Quando surge um desafio, um problema, as pessoas vão lá e resolvem, e sempre tem alguém que não sabe sobre aquilo pra aprender com os outros. Ela é transdisciplinar por natureza – explica Bruno.

 

Metodologia é aprovada por pais e alunos

 

O projeto implantado em Caçapava é baseado na Escola da Ponte, idealizada pelo português José Pacheco e localizada na cidade do Porto, Portugal. Tanto na escola portuguesa quanto na caçapavana, são as crianças que escolhem suas áreas de interesse e desenvolvem pesquisas em grupo ou individuais sobre esses temas, acompanhadas não por professores, mas por tutores, e segundo seu próprio ritmo.

No primeiro ano do projeto, 2019, ele foi considerado uma atividade extracurricular para os alunos da Escola Eliana, fazendo parte de um curso de formação para tutores. Em 2020, com a chegada da pandemia, sem a possibilidade de ir até a escola, os tutores aplicaram a teoria aprendida no curso com seus filhos em casa ou com crianças da comunidade.

– Final da história: as crianças se apaixonaram pela metodologia, os pais se apaixonaram pela metodologia, porque viram que as crianças estavam aprendendo com gosto – contou Bruno.

Foi em 2021 que a atividade extracurricular se tornou um projeto de extensão em que todas as crianças que participam são matriculadas na Escola Eliana, mas não frequentam as aulas tradicionais, apenas as atividades do projeto. Segundo Bruno, isso não traz nenhum ônus para a escola, pois já havia tutores de todas as áreas do conhecimento, e todos são voluntários.

– Nós nos reunimos com o prefeito Giovani Amestoy, com o secretário [de Educação] Aristides Costa e com o coordenador acadêmico Edimar Fonseca. Apresentamos o projeto, o prefeito gostou e o secretário ficou de analisar. Nós estamos muito bem embasados na lei. A LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional] dá base para isso. A Secretaria aprovou o projeto, e começamos a trabalhar com as crianças que já estávamos acompanhando, mas, dessa vez, como educação formal, e com crianças da escola e da comunidade, para quem abrimos vagas – relatou Bruno.

 

Aprender com a comunidade

 

No total, 22 crianças e 22 educadores participam do projeto em Caçapava. Desses educadores, 10 são tutores e 12 são tutores especialistas. De acordo com Bruno, a diferença é que os tutores não trazem respostas para as crianças, apenas perguntas. São eles que acompanham todo o processo de aprendizagem. Já os tutores especialistas são consultores que ajudam os tutores que têm dúvidas dentro da área de sua especialidade. Eles também ajudam as crianças cumprindo a função de fontes de pesquisa. Diferente dos tutores, os especialistas trazem respostas.

– Para o tutor, não importa a resposta, importa a capacidade da criança de buscar a resposta. A gente preza pela autonomia, e isso trouxe benefícios como uma maior motivação para aprender, e o desenvolvimento mais rápido de habilidades básicas, como a escrita e a retórica – diz Bruno.

Sobre o funcionamento do projeto, ele explica:

– Tudo começa no currículo subjetivo. A gente pergunta pra criança o que ela quer aprender, e ela responde, por exemplo, “eu quero aprender sobre Naruto”. Ela vai pesquisar quem é Naruto, da onde vem esse desenho, e descobre que é japonês e que o Naruto é um ninja. Então, se pergunta o que é um ninja, em que período eles viveram, a diferença entre eles e os samurais. Assim, a criança começa a estudar aspectos da cultura japonesa a partir da pergunta. Depois, incluímos, por exemplo, a matemática, e vamos conectando, a partir do querer da criança, à Base Nacional Curricular Comum [BNCC]. Há também os projetos com ênfase nas grandes áreas da BNCC. Por exemplo, o de ênfase em matemática é um projeto de robótica; o de ênfase em ciências da natureza é um projeto de horta; o de ênfase em linguagens é um projeto de teatro. E há os círculos de estudo, como o de alfabetização, em que as crianças vão aprendendo juntas a partir do diálogo e da conversa entre elas. O nosso projeto não está focado em formação e conteúdo, está focado em habilidades. Ele está tentando criar uma educação para o século 21, que seja útil, e que as crianças aprendam por prazer. Planejamos (assim que possível, por causa da pandemia) visitar lugares da comunidade, ir à padaria aprender com a senhora que faz pão, ir aprender com o senhor que tem uma horta, ter uma aprendizagem na vida, aprender com a comunidade – finalizou.

Foto: arquivo pessoal