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Historiador Rivadavia Severo apresenta os turistas de aventura

Historiador Rivadavia Severo apresenta os turistas de aventura

Caçapava tem vários epítetos, a começar por “Papa Laranja”; e até algum pejorativo: “Fim da Picada”, pois o termo tupi-guarani da denominação do município pode, também, significar “Fim do Caminho da Mata”. Há, porém, outros, populares ou oficiais, como Sentinela dos Cerros, Soberana da Cal, Portal do Pampa, Centro Regional de Ufologia, e os oficiais 2ª Capital Farroupilha, e os inclusos recentes Capital da Geodiversidade e Capital do Turismo de Aventura.

O gosto por conhecer outras plagas é inato no gênero animal e também prazeroso na espécie humana. Nesta época moderna, a facilidade dos meios de transporte criou a indústria do turismo e popularizou suas viagens. Em meados do século passado, tínhamos poucas notícias de conterrâneos visitando outros Continentes; Uruguai e Argentina representavam todo “estrangeiro” ao alcance dos ainda poucos. Tínhamos notícias de alguns que cruzavam o Atlântico, como a dona Ruth Velho Dias, prof. Jodel, e nas Três Américas, Ciro Chaves. A partir deste milênio, com a agência Giro facilitando as prebendas, dezenas de munícipes puderam cruzar fronteiras de países nos quatro cantos do Mundo.

As agências oferecem o “turismo seguro”: o viajante sai de casa com tudo pago (em prestações), não precisando se preocupar com eventual falta de dinheiro ao meio do roteiro. Há, por outro lado, aqueles que preferem as incertezas e o prazer na superação dos percalços, ou transitar por caminhos desafiadores: são os turistas de aventura. Entre os primeiros, há enorme gama em nossa cidade, ainda que anovel deferência refira-se ao segundo. E foi a interação entre ambos que motivou o surgimento de tantos grupos, ou solitários, aventureiros, sendo agora lugar comum notícias de conterrâneos devassando os mais distantes pontos do Planeta.

O primeiro rio-grandense a escrever sobre a Revolução Farroupilha, J.F. Assis Brasil, em obra publicada na penúltima década do século XIX, para quem, entre os motivos que levaram os gaúchos da épocaa sustentar dez anos de luta contra o Império, foi o meio cósmico, que favoreceu a eclosão dos fatos; a interação do meio físico com a índole do povo, descendência açoriana com a paisagem pampeana, autêntica o de à liberdade. E o turismo de aventura caçapavano assemelha-se, por oferecer em seu relevo locais para o desempenho da atividade. As regiões do Segredo, as Guaritas, as Minas do Camaquã, o rio, tudo ao fácil alcance; pode-se explorá-los saindo pela manhã e retornando à tarde.

Pode-se destacar, entre vários outros, dois empresários de sucesso, vitoriosos em seus empreendimentos profissionais, que foram buscar novos desafios no turismo de aventura: Eraldo Vasconselos e Marcelo Spode. Desprezando o mais vulgar meio de transporte para longas distâncias, como centauros dos velhos tempos, montados em motos, percorreram as mais belas ou inóspitas regiões do Planeta. Eraldo iniciou sua saga no início da década, ocupando as férias escolares para um “raid” pelo território brasileiro. Partindo de Caçapava, cruzou os estados do Sul, Sudeste, Centroeste, chegando ao Piauí e Fortaleza, de onde retornou pela costa brasileira. Na viagem seguinte, voou até los Angeles, onde alugou uma Warley Davison e se mandou pela rota 66 ao Oeste Americano, passando, entre outros locais, pelos populares Las Vegas e GranCanyon, concluindo o passeio em Dallas, no legendário Texas.

Nas férias escolares, dois anos após, acompanhado pelos confrades Jairo Dias Souza e Ciro Chaves (levando na garupa a esposa Samya), rumaram para o Chile e foram conhecer a região mais inóspita do mundo: o deserto de Atacama. Com cerca de mil quilômetros de extensão, do norte do Chile até a fronteira com o Peru, não havia registrado nenhuma precipitação pluviométrica desde a chegada dos espanhóis no início do século XVI, até o final do século passado, medidos 400 anos sem chuva. Pois esses excursionistas lá foram alvo de enxurrada no final da viagem. No retorno, visitaram Valparaiso, Viñadel Mar e Santiago, Mendoza, na Argentina e Uruguai.

Em maio, Eraldo resolveu aventurar-se além Atlântico. Em Portugal, reuniu-se a outros motociclistas que, pilotando lendárias BMWs, cruzaram o Mediterrâneo e foram levantar poeira no deserto do Saara. No norte africano, tomou contato com antigas civilizações, sentindo as diferenças entre pessoas novatas e povos milenares.

Em janeiro do ano passado, o grupo formou-se com Eraldo e sua esposa Maria Teresa, Ciro Chaves e esposa Samya, Jairo, Claudio Louvison e Luciano Correa, para visitar o sitio de Macho Picho, antiga capital imperial inca, no Peru.

A travessia dos Andes, de moto, foi o melhor dos momentos do excursionista entre todos os eventos. Este ano, em janeiro, outra vez acompanhado por Jairo, Ciro e esposa, rumaram com destino ao “Fim do Mundo”, a cidade argentina de Ushuaia. Na região, visitaram as geleiras de Perito Moreno, Calafate, cruzaram em barco o Estreito de Magalhães, e no sul da Patagônia, enfrentando ventos fortíssimos que dificultavam o manejo da moto, Eraldo sofreu grave acidente.

Conta-nos que as viagens eram precedidas de meticuloso planejamento, antecipando locais de pouso, abastecimento e refeições. Como o motoqueiro dispõe de pouco espaço, a bagagem comporta vestuário apropriado e restrito. Em alguns locais, cartões de crédito não são aceitos e viajar com muito dinheiro vivo é temerário, por isso o trevelet’s-check é o mais indicado. Portar documentação compatível (passaporte, se possuir) e do veículo, carta verde e seguro pessoal de viagem.

No acidente na Patagônia, Eraldo sofreu fraturas nas costelas, clavícula e dedos, permanecendo hospitalizado por uma semana. O seguro cobriu as despesas médicas, hospitalares e viagem aérea de retorno.

“Motociclista há mais de 30 anos, apaixonado por esportes de aventura, como voo livre, canoagem, velocross e rapel,incentivador do turismo, fanático por Caçapava”. Assim se intitula o empresário de múltiplos empreendimentos, Marcelo Spode. Obcecado pela aventura desde a infância, seu grande prazer era montar na moto de Roberto Zamberlan, estacionada na garagem de seu pai, imaginando voar pelas estradas; “até sentia o vento fustigando a face e desalinhando os cabelos”. Mais tarde, o impulso cresceu com as aulas do prof. Eduardo Marin, onde disse “eu viajava por várias regiões, conhecendo lugares distantes e exóticos”.

A primeira aventura ocorreu no final do século passado, quando, num grupo com pessoal de Santana, partindo em barco a remo da ponte de Santana, desceram o rio Camaquã. Em determinado ponto, os companheiros desembarcaram e Marcelo seguiu sozinho, até alcançar a Lagoa dos Patos, em percurso de cerca de 150 quilômetros.
A nova aventura só ocorreu anos após (2012). Pilotando um Fusca 75, Marcelo, Rodrigo Mota e Marcus Lacava saíram de Caçapava rumo ao norte do país, chegando na foz do rio Oiapoque, extremo norte do litoral brasileiro.

O retorno acompanhou o traçado da BR-116, chegando à foz do arroio Chuí, extremo sul do litoral do Brasil. Dois anos após, os rumos mudaram. Não estava mais na RD 350 de Zamberlan, imaginando viagens, e sim montado na própria Yamaha XT 660, e dizendo ao companheiro Rodrigo (com moto semelhante): “vamos até ao fim do Mundo”. Passaram por Uruguaiana, pela ruta 14 chegaram a Buenos Aires e, daí, pela ruta 3 cruzaram a província, uma ponta da la Pampa, Rio Negro, Santa Cruz, chegando à Terra do Fogo, com passagem por território chileno. Enfim, o “Fim do Mundo”: Ushuaia, a povoação mais meridional da Terra. Ainda fizeram um “raid” na ruta 49, estrada provincial em Buenos Aires, desafio aos motociclistas numa descida de 20 quilômetros beirando o rio Huaco, entre as cidades de Quilmes a Temperley.

Em 2015, a grande aventura, viagem de moto até ao Alasca, extremo norte do continente, desafiando cruzar os postos de migração da América Central, como Honduras, El Salvador, Nicarágua. Agora, o grande desejo a ser satisfeito é a viagem de veleiro, com a família, singrando os “Sete Mares” e ancorando em todos os portos.

Para a maioria dos turistas, o interesse está focado nos locais a serem visitados. O meio de transporte é secundário, valendo o tempo e o custo. Ao aventureiro, o alvo é o transcurso da viagem, conhecer países, outros povos e civilizações, transpor os postos de migração, cambiar moedas, enfim, toda parafernália de trânsito por terra. Enquanto para a maioria, em viagem de turismo, o que mais interessa é o fim, para o aventureiro, o foco está no meio.

Por Rivadavia Severo

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