Nicanor Silveira,popularmente conhecido como “Tio Nica”, pai do nosso grande amigo Nelsinho (o garçom mais querido da cidade), foi uma pessoa muito ligada ao Esporte Clube Aymoré. Sua vida se confundia com a do clube. Foi jogador de 1950 a 1962 e, depois de “pendurar as chuteiras”, exerceuas funções de massagista e roupeirocontinuando, assim, a servir ao seu clube do coração.Tive o prazerde conhecê-lo e de ser seu companheiro de pescarias, outra grande paixão de sua vida.

Nicanor também era duble de juiz e bandeirinha. Caso faltasse alguém no trio de arbitragem, Nicanor era convocado para completá-lo. E foi justamente nessas ocasiões onde aconteceram as mais engraçadas histórias desse nosso personagem.

Em novembro de 1972, Aymoré e Gaúcho fariam uma partida amistosa no Macedão cuja renda seria revertida para o Lar do Idoso Rosinha Borges. Um dos bandeirinhas escalado para dirigir a partida não se apresentou e Nicanor foi convocado para assumir a função. O treinador do Gaúcho, Sr. Oscar Fagundes, protestou contra escolha de Nicanor, pois bem sabia de seu fanatismo pelo Aymoré. Não adiantou de nada protestar, pois não havia mais ninguém disposto a ser bandeirinha.

A contra gosto o Gaúcho aceitou jogar o clássico. A partida transcorria como sempre, renhida, muito disputada, pois quando trata-se de clássico não importa se é amistoso ou oficial, ninguém quer perder. Lá pela metade do segundo tempo, há uma jogada dividida entre o ponta-direita do Gaúcho e o lateral-esquerdo Pé-queimado do Aymoré, rente à linha lateral do gramado e bem na frente de Nicanor. A bola espirra e sai pela lateral e Pé-queimado grita para Nicanor: “de quem é o lateral?”. Nicanor responde sem pestanejar: “É NOSSO”.

Em outra ocasião,no ano de 1968, o Aymoré foi disputar um amistoso em São Gabriel, contra a equipe do Oriente Futebol Clube. O juiz não compareceu e o Nicanor prontamente se ofereceu para apitar a partida. O pessoal do Oriente aceitou de bom grado a presteza de Nicanor, certamente por não conhecer a fama do “artista”.

O jogo estava se encaminhando para seu final e o Aymoré perdia por 1 x 0. Naqueles tempos não havia os acréscimos ao tempo final, e sim os famigerados “descontos”, que geralmente não passavam de dois minutos. Mas como o Aymoré estava perdendo, Nicanor não apitava o final do jogo. Os jogadores adversários começaram a reclamar do tempo excessivo e Nicanor dizia “não tem conversa, houve muita paralização”.

Quando a partida já estava com doze minutos de descontos o Aymoré, finalmente, conseguiu seu gol de empate. Nicanor não deixou a bola ir para o centro do gramado e encerrou a partida. Imediatamente, foi interpelado pelo capitão da equipe gabrielense, que queria explicações para tantos descontos. Nicanor, com a cara mais deslavada impossível, fala para o capitão: “COMIGO É ASSIM, QUANDO EU APITO MEU TIME NUNCA PERDE”. E saiu correndo em direção ao ônibus da delegação do Aymoré gritando: “SEGURA O HOMEM, SEGURA HOMEM”.

Nilvo Torres Dorneles
Pesquisador