Li, numa edição recente, uma crônica muito linda da sempre Professora Anna Zoé Cavalheiro. Ela parecia feliz por estar viva e com saúde boa em plena pandemia desgraçada, rodeada de amigos, parentes ou não, ao completar nove décadas de existência, embora saudosa, é claro. Pareceu-me transpirar saudades daqueles tempos da sua juventude, já distantes.

Me permito enviar um abraço virtual, dos bem apertados, para a professora de escola e de vida. Mas, como sempre me pego fazendo por instinto, analiso a situação, e já me incluo nesse clube dos longevos. Sim, porque decidi, para mim mesmo, por mais uns longos tempos de vida e, para isso, ando prestando mais atenção aos cuidados que a gente, no quartel, chamava de “manutenção preventiva do esqueleto”.

O raciocínio é muito simples: se tenho medo de altura, não me arrisco a saltar de paraquedas; se não sei nadar, não me atiro em poço fundo; se a pressão é alta pelo DNA, não deixo dos exercícios físicos, da alimentação moderada e dos remedinhos de controle diários…

Mas tem outras coisas que me encafifam sobre o tempo e suas lindas e doloridas lembranças do antes, do tempo passado. Será que, quando novos, vivemos para planejar o futuro que sempre nos parece tão distante e, depois de velhos, vivemos para recordar do passado que nos parece tão próximo? Será que são as coisas que nos rodeavam que nos fazem saudosistas, ou é a falta das pessoas queridas que já se foram que nos satura de saudade e de boas lembranças? Será que as recordações marcantes dos tempos dos pais, que predominam em nossos sentimentos sobre os momentos atuais com filhos e netos, que estão sempre juntos ou com possibilidade de serem reencontrados quando quisermos, é que fazem essa diferença em nossos corações? Será que essa dorzinha moderada, fincada no passado de cada um dos “mais vividos” machuca mais, e sempre mais, em todos que envelhecem?

Mudando de saco pra mala, o ingazeiro da frente da minha casa está florescido, e um bando de beija-flores se reveza em revoadas acirradas na disputa diária de seu néctar. Isso é uma bela e simples manifestação de vida e de natureza, e precisamos usufruir delas mais do que das lembranças doídas que sofremos. Sem desprezá-las, é claro, porque vem de lá, das raízes, o sentido das nossas vidas pelos tempos. Talvez seja por isso que admiro os passarinhos. Porque podem voar…