Enquanto leio o jornal do dia, recostado nos travesseiros da cama do casal, minha mulher canta no  chuveiro, lavando, secando, cremeando e escovando a cabeleira. É um rito. Acredito que comum a quase todas às mulheres em busca da melhor aparência, no turbilhão das vaidades femininas e na prevenção das fofocas, tipo fogo amigo, das  demais. Por muito pouco, lhes dirão desleixadas ou mal arrumadas.

Entendo, por que já aprendi pela convivência, que as mulheres estão sempre certas, em tese, têm sempre razão. O que seria de nós sem esses segundos seres mais importantes na vida de todos os homens: mães, companheiras, críticas e incentivadoras. Acima delas só Deus.

E o canto do banheiro? Minha filha adolescente também canta no banheiro, de som ligado em clima de quase boate. Eleva a auto estima, melhora o astral, areja os pulmões e aquece as cordas vocais. Eu também sou cantor de banheiro. Toda vez que abro o meu peito  interpretando canções da minha autoria, fico me perguntando como é que eu não faço sucesso? Canto muito melhor do que o Baitaca ou do que a Anita. Canto e encanto no chuveiro. Componho melhor do que o Mano Lima e do que a Valesca Poposuda. Acho que “o que me falta-me “ é mesmo glamour e uma oportunidade. Quem sabe uma dupla sertaneja dessas que são todas iguais, na gritaria  descornada e luzes multicoloridas, em busca  da consagração. Para quem já largou a carreira militar para virar político, não custa nada  largar dessa última para virar cantor.

Todo mundo acha que canta bem no banheiro. O som dali  se assemelha ao de um estúdio de gravação, recanto de paz interior. Existem pessoas que  gostam de ler descansando no vaso sanitário. Enquanto leem, lhes entra sabedoria pelos olhos  e lhes saem porcarias pelas partes baixas, compensando a variação volumétrica corporal em questão.

Acho, por fim, que cantamos no banheiro, pela oportunidade de estar despidos de roupas e vestidos de vaidades, na intimidade, num momento de reflexão conosco mesmos, viajando no espelho, interlocutor barato, e muito especial pela descrição e capacidade de guardar segredos. E quantos? Vocês já repararam que a gente se acha sempre bem e não tão encarquilhado quando se enxerga no espelho, fazendo poses? Velhos, magros, gordos demais estão os outros que encontramos por aí.  Será que existe alguma pessoa no mundo que nunca cantarolou enquanto tomava  banho? Se não canta, conversa sozinho em voz alta, caducando segredos  com as paredes azulejadas. Repartindo mazelas.

Como é bom cantar no banheiro, para receber os aplausos de si mesmo ou mesmo uma vaiazinha discreta de vez em quando. Visto que quando não enganamos nem a nós próprios é porque todo mundo já sabe que não enganamos mais ninguém. E isso vale para diversas atividades. Na política, por exemplo.

Por Zauri Tiaraju