“Você que é o William, o jornalista paulista?”. Com esta pergunta, no primeiro dia que cheguei em Caçapava do Sul enquanto almoçava num restaurante, conheci o diretor do Jornal Gazeta, uma pessoa que aprendi a respeitar devido sua seriedade com a informação e que, além de chefe, como gosto de chamá-lo até hoje, tornou-se um amigo para toda a vida.

Esta mesma pergunta me fez conhecer um poquinho mais da cidade nova, até então, que escolhi para estudar e seguir a profissão que escolhi, de ser jornalista. Afinal, se era fácil reconhecer um estudante “de fora”, assim, imaginei uma Caçapava “pequena e de rostos familiares”.

De maio de 2014 para cá, muitas àguas rolaram por estes arroios (essa foi uma das primeiras palavras que escrevi na Gazeta, quando, ao me reunir com moradores que estavam isolados no interior devido a enchente, um senhor, “gaudério”, me disse: Quer atravessar o arroio à Cavalo?” E o paulista, aqui, com medo, do animal, recusou e preferiu a modernidade de falar por celular com os que o esperavam na outra margem do rio.)

Foram inúmeros outros questionamentos, pois jornalismo se faz de indagações, de aferição de fatos, de muita insistência, de “pés no bairro”, ou barro, de encarar dias de chuvas e do famoso (e frio) Minuano para buscar a capa, a informação precisa. Mas também se faz de gente, de histórias de gente, e neste aspecto, poder apresentar minhas palavras, recontando a história de tantos caçapavanos, além de me aproximar ainda mais da cultura local, me fez aprender a respeitar, mais e mais e admirar esta gente.

Quantas pautas e reuniões de pautas, coberturas especiais e vivências nas “querências das palavras” a Gazeta me proporcionou? Foram inúmeras, um rincão de histórias:

De coberturas como a da Polêmica das diárias da Câmara de Vereadores, capa da edição 816 da Gazeta, publicada em 20 de fevereiro de 2015, que repercutiu em todo o Estado e que ocasionou ainda uma “acareação” minha junto a vereadores descontentes com a notícia. Havia provas! Havia o fato! Era notícia. E, mais do que isso, era papel social do jornal e jornalista retratar aquilo. E que fez, também, com que me sentisse, posterior acariação, acolhido com as centenas (sim, centenas) mensagens de apoio recebida ofertando acolhimento, lar, cafés… Fazendo-me, novamente, admirar, mais a receptividade do povo caçapavano (que tira seu “pelego” pra cobrir o amigo).

Outras tantas capas, prontas, que foram mudadas no prelo, pois, depois de um dia festivo e vermelho-coração, fez com que o coração de um dos maiores ídolos desta terra, o Caçapava, por irônia do destino, morrer em sua querência. O jornal parou, assim como toda a cidade, logo cedo, e corremos para o hospital para checar a informação. (Até mesmo para um jornalista “paulista”, aquele dia foi triste, pois, o Caçapava, assim como inúmeros “Caçapavanos no Mundo”, era um cidadão de todos nós, brasileiros, e que apresentava a cultura gaúcha aos quatro cantos. Lembro-me de, naquele dia, registrar com palavras e câmera as inúmeras homenagens. Mas, o registro maior, foi o que ficou na minha memória, da tristeza de carregar e ter de ajudar a colocar o seu caixão no carro do Corpo de Bombeiros).

E nem só de lembranças tristes se faz a história de mil edições de um dos veículos mais respeitados da campanha gaúcha, pioneiro em diversos aspectos, e com grandes nomes de jornalismo que por ali passaram:

A passagem da Tocha Olímpica, as conquistas de Anderson Henriques e a ascensão do guri Jailson (que saiu dos campinhos caçapavanos para o Grêmio) e tantos outros ilustres desta terra que, carinhosamente, chamo, hoje, de lar, foram capas da Gazeta nos quase três anos em que estive como jornalista responsável deste papel-jornal que, mais do que dar a notícia, mantém viva, e pulsante, a história de Caçapava do Sul.

William Brasil (foi jornalista da Gazeta de maio de 2014 até dezembro de 2016)