As pessoas que amamos são as mais importantes na nossa jornada terrena e costumamos ser condescendentes nos julgamentos que fizemos a respeito delas, porque há amor, fraternidade imbricados aí.

Porém, tendemos a ser maus, quando morre um estranho. Não prestava; devia ser uma “nulidade” são expressões comuns quando há uma vítima de homicídio. Esquecemo-nos que a vítima também teve familiares que o amaram, independente do seu jeito torto ou não de ser. Perdemos a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Dias atrás, uma mãe contava que, nas madrugadas, percorre as ruas da cidade, em uma bicicleta, em busca do filho, usuário de drogas. Ninguém sabe disso, ninguém conhece o seu sofrimento. Mas todos são pródigos em julgar o seu filho.

Os assassinatos Marielle Franco e Caroline Pletsch desencadearam, nas redes sociais, uma disputa para saber qual a morte era mais importante. Qual a morte merecia “mais mídia”? Desnecessário! Toda e qualquer morte será pranteada por quem ama as pessoas mortas, sejam heróis ou bandidos – em algum momento, houve uma pessoa que amou e sonhou um futuro brilhante para aquela criança, agora, tornada adulta.

Há, nas redes sociais e no mundo off line, uma inversão de valores, despreza-se a vida, menospreza-se o ser humano, como se alguns fossem mais importantes que outros. Nestes dias de Páscoa, muitos que disseminam discursos de ódio foram às igrejas, oraram e, ali, na porta, esqueceram o sacrifício feito por Jesus, que veio ao mundo para que todos tenham vida e tenham-na em abundância.

Sim, bandidos devem ser punidos, mas devem sê-lo na forma da lei. O que está errado em nosso país é muito mais que a eventual abordagem policial, que julgamentos sumários feitos na rua, o que está errado em nosso país é um Estado – entenda-se governo oficialmente constituído na esfera federal – leniente, permissivo, que “lavou as mãos” diante da violência como um todo desde décadas. Não serão execuções sumárias ou comparativos infames sobre o valor de uma vida ou outra que mudarão o quadro caótico que estamos vivendo.

É preciso superar a intolerância que conduz à barbárie, recuperar sentimentos como amor, respeito, dignidade da pessoa, reconquistar o diálogo nas famílias, pois não será uma arma na mão que garantirá cidadania para um povo oprimido.

Professora Elaine dos Santos
Doutora em Letras