João Lara mostra a carteira de habilitação do pai Aparício
Fotos: Marcelo Marques

Na década de 40, há 78 anos, o agricultor Aparício Soares dos Santos (falecido), viaja de carroça pelo interior do Estado vendendo salame, charque, feijão. Seus principais destinos eram Pelotas, Bagé e Restinga Seca. Ele comprava os produtos para revender aos moradores das zonas rurais dos municípios.

Naquela época, ao contrário de muitos que saem a dirigir pelas ruas sem habilitação, seu Aparício conduzia seu veículo de locomoção com cautela, segurança e, acreditem, devidamente habilitado.

O Serviço de Trânsito de Caçapava habilitou o jovem, então com 27 anos, como Condutor Amador no dia 27 de fevereiro de 1940. Sua carteira de habilitação de número 657, contém seus sinais característicos (olhos e cabelos castanhos, boca média e estatura de 1,53m), além da assinatura de uma autoridade policial.

A carteira de habilitação para conduzir a carroça do seu Aparício, que casou quatro vezes, está em posse de um dos seus 21 filhos: João Lara, pedreiro, 59 anos.

– O pai dizia que a carroça tinha até placa, com número de identificação (657). A licença valia como a atual Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e ele disse que se sentia importante por ser um dos poucos “pilotos” habilitados. Meu avô mesmo não tinha essa carteira por ser analfabeto, daí meu pai teve que tirar o documento para eles seguirem trabalhando – diz João.

O pedreiro lembra que seu Aparício contava que levava uma semana de Caçapava a Pelotas pelas estradas de chão batido.

– Eles levavam cachorros bravos por questão de segurança. Enquanto dormiam os cães viajam o acampamento para evitar a ação dos ladrões, principalmente dos castelhanos (uruguaios) que entravam na região por Bagé. O pai disse que uma vez, a noite, avistou três homens se aproximando de onde estavam acampados e ele deu dois tiros para correr os assaltantes. Naquela época ocorria muito assassinato. Ele falava que o pessoal contava história de morte de carroceiros nas estradas. Por isso, sempre viajam em comboio de quatro ou mais carroças – descreve.

Seu João guarda a carteira com orgulho e revela que volta e meia ela é requisitada em gincanas e exposições, por ser um documento histórico.