Numa manhã fria do inverno de 1999, a professora Sandra Pesavento me viu triste. Sentado num banco dos corredores do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS destilava meu ódio, pois na noite anterior havia discutido com um militante neonazista no Bom Fim. Depois de me ouvir, ela colocou a mão no meu ombro e disse: meu filho, com leigo não se discute.

As informações equivocadas do artigo assinado, publicado no jornal (edição nº 998, do dia 17 de agosto), a qual relata o descaso e abandono do Patrimônio Arquitetônico e Histórico da nossa cidade, fez eu reavaliar o ensinamento da minha querida e sabia mestra.

Comungo com a preocupação que existe em nosso município quanto a questão da preservação do patrimônio histórico. É visível que as edificações da área central foram alteradas. Basta observar o estilo arquitetônico da maioria das construções. Nossa cidade começou a ser erguida nas primeiras décadas do século XIX. Praticamente todos os prédios do centro foram construídos entre as décadas de 1910 e 1980, ou seja, a memória arquitetônica da primitiva Caçapava do Sul foi destruída a pelo menos 40 anos – temos também relatos de edificações históricas demolidas entre décadas de 1990 e 2010 – restando, assim, apenas poucas edificações primordiais no centro urbano.

Isto se deve também ao fato dos primeiros Planos Diretores da cidade terem sido feitos no início dos anos 1980, planos estes que regulamentam a preservação de edifícios de interesse histórico no município. O que é comum na maioria das cidades do Rio Grande do Sul. Foi a partir deste momento que se criou a lista de edifícios inventariados da cidade, rol que indica o caráter histórico da construção, mas não garante sua preservação, visto que os proprietários têm autonomia para qualquer forma de intervenção, reforma ou demolição do imóvel.

Outro fator importante que tem de ser analisado é a propriedade dos edifícios e prédios históricos. A Prefeitura Municipal é proprietária ou salva guarda de quatro edificações na cidade: o Centro de Cultura Arnaldo Luis Cassol (protegido e tombado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico do Estado – IPHAE), o prédio que abrigava a Prefeitura (antiga Intendência Municipal, que está interditado), a EMEI Pedacinho de Gente (antigo União Caçapavana, que está sendo reformada), e o Forte Dom Pedro II, sendo este último propriedade do Exército Brasileiro, cedido a Prefeitura Municipal e protegido pelo Instituto de Patrimônio Histórico Artístico Nacional – IPHAN.

Estes edifícios podem sofrer intervenções estruturais direta da Prefeitura Municipal. A preservação e manutenção das demais edificações é de responsabilidade dos proprietários. O que cabe ao Poder Público é criar políticas que estimulem ações de preservação, como desconto de impostos as edificações históricas ou produzindo campanhas de conscientização da importância do patrimônio, como forma de diminuir ações de vandalismo.

Alguém pode sugerir o tombamento de prédios e sempre surgem vozes a favor desta ação. Bom, gostaria de lembrar que mesmo tombado a responsabilidade de preservação dos edifícios é do proprietário. O tombamento não permite que edificações possam ser restauradas utilizando materiais alternativos ou modernos. As estruturas devem ser recuperadas com os materiais originais. É por este motivo que as paredes da Casa Borges de Medeiros – que é de propriedade da Igreja – terão de ser reformadas usando capim, esterco, óleo de baleia e barro. As telhas deverão ser feitas manualmente. O custo estimado da reforma deste imóvel é de mais de 1,5 milhões de reais. E o dinheiro é apenas um dos problemas. Óleo de baleia existe apenas no Japão e o custo da mão de obra especializada em restauros é de centenas de milhares de reais. Por este motivo casas tombadas se tornam invendáveis, como é o caso da Casa dos Ministérios, que pertence a uma família da nossa cidade, mas que o tombamento simplesmente impossibilitou ações de preservação do imóvel.

Esta reforma só vai acontecer porque a Igreja colocou à disposição dezenas de profissionais em montagem de projeto da Lei de Incentivo de Cultura e captará recursos vindo de impostos de grandes empresas interessadas em preservação patrimonial.

A dura realidade é que o descaso com o patrimônio arquitetônico da cidade é a materialização do desconhecimento por parte das pessoas a respeito da sua História, pois é a memória dos prédios que fazem suas frias pedras falarem e terem algum sentido.

Isto é tão verdade que muitas pessoas acham que o Forte Dom Pedro II foi construído durante a Guerra dos Farrapos e desconhece o local da linha de defesa construída pelos Dragões de Rio Pardo em 1777 – em torno do Centro de Cultura – acampamento militar que deu origem a cidade. Inclusive tive a infelicidade de assistir uma das articulistas da matéria, que falou sobre o abandono do patrimônio histórico da cidade, dizer em uma palestra, para centenas de estudantes, este enorme equívoco histórico.

Quanto ao Museu Lanceiros do Sul ser usado como ringue, isto é uma acusação infundada e absurda, pois a equipe da Secultur estava atendendo estudantes do ensino básico, dentro do projeto Férias no Museu, onde aconteceu apenas uma demonstração de artes marciais por pessoas extremamente qualificadas.

Não existe nada mais moderno que usar espaços de museus para ações culturais. Todos os anos ocorre a semana dos museus e, nas suas duas últimas edições, por todo o Estado do Rio Grande do Sul ações culturais foram feitas nos espaços de salvaguarda. Já vi peças de teatro, apresentações performáticas, bandas e grupos de capoeira se apresentando nestes locais.

Ainda sobre a equivocada colocação do artigo publicado, onde relata que pessoas sem capacitação estão administrando nosso patrimônio, gostaria de lembrar que a equipe da SECULTUR é formada por técnicos com curso superior e funcionários que possuem mais de 30 anos de administração pública.

Entre 1998 e 2006, trabalhei na Prefeitura de Porto alegre como Historiador e estive envolvido em dezenas de projetos de museus e áreas patrimoniais – fiquei diretamente ligado a montagem do Museu Itinerante da Carris Porto-alegrense, Museu de Percurso do Negro de Porto Alegre e Memorial da Loucura do Hospital Psiquiátrico São Pedro – trabalhei diretamente com Museólogos como Pedro Vargas, Noris Leal e Francisco Marshall, auxiliando em montagem de exposições de importância estadual nos Museus da Santa Casa de Misericórdia, Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo e Museu da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Em 2001, com a professora e doutora Rita Possamai, trabalhei dando apoio de pesquisa histórica ao Projeto Monumenta do Centro de Porto Alegre.

Durante minha trajetória de mais de 20 anos em áreas de salva guarda, escrevi livros e tenho mais de 300 artigos publicados em jornais e revistas, inclusive fui premiado por projetos do Fundo de Amparo da Cultura – como a modernização do Museu Bruno Born de Lajeado em 2012 – sou produtor cultural reconhecido em todo o Estado. Basta fazer uma modesta pesquisa na internet para comprovar estes dados.

A equipe da SECULTUR de Caçapava montou dezenas de exposições nestes quase dois anos de trabalho em nossa cidade, além de promover eventos para milhares de pessoas. Fatos amplamente publicados na imprensa local e estadual. O Centro de Cultura Arnaldo Luiz Cassol tem recebido centenas de visitantes, seja no Museu, na Biblioteca ou Arquivo Histórico. E a forma de trabalho da nossa equipe vai continuar assim, hasteando as bandeiras em frente ao Reduto Farroupilha e abrindo o Centro de Cultura – inclusive aos finais de semana – a todas as manifestações culturais de Caçapava do Sul, de forma democrática e gratuita, movimentando a comunidade cultural da nossa cidade e atendendo a todos os caçapavanos e visitantes da 2ª Capital Farroupilha.


Por João Timotheo Machado
Professor bacharel em História UFRGS – Secretário Municipal de Cultura e Turismo de Caçapava do Sul