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Até quando?, questionam produtores

Até quando?, questionam produtores

Por Tisa de Oliveira

A Casa do Povo, como é chamada a Câmara de Vereadores, realmente fez jus à nomenclatura. Na segunda-feira, dia 25, o plenário ficou lotado de produtores rurais, presidentes de instituições, representantes de sindicatos e autoridades em audiência pública para discutir as condições das estradas do interior. Também esteve presente o promotor Gabriel Munhoz Capelani.

A comunidade ocupou seu espaço para reivindicar o direito de ir e vir, uma vez que a inviabilidade de trafegar está impactando a economia do Município em virtude dos prejuízos. Confira algumas falas:

“Queremos soluções para o interior. Desde 1987, tivemos períodos bons e ruins. De lá para cá, mudou a comunicação, a forma como as informações chegam às autoridades. Agora, podemos tirar fotos e fazer vídeos com nossos celulares, porém pouco mudou em relação à qualidade das estradas. Nossa sugestão é terceirizar quando for possível. Muitas localidades têm recursos. Por que não trazer os produtores para ajudar?”

Sandro Ferreira, do Sindicato Rural

“A agricultura familiar depende de estradas boas para comercializar seus produtos. Já levamos nossas demandas ao prefeito e ao secretário. O serviço é feito, mas tem que durar. Acreditamos que o secretário terá um fôlego quando for realizado um serviço com mais acabamento. Sabemos que a chuva danifica as estradas, por isso este trabalho deve ser acompanhado por um engenheiro. Nosso interior está envelhecido, o mato tomou conta. Tudo cresceu no município, menos a estrutura do interior.”

Lasier Garcia, presidente do STR

“Estou novamente aqui pedindo o conserto das estradas. Já estive diversas vezes com o secretário e com o prefeito. Carregamos mais de 200 terneiros e, para isso, tivemos de ir nos vizinhos, porque o caminhão não entrou na nossa propriedade. Só queremos estradas em boas condições. Tudo que entra na mesa das pessoas da cidade vem do campo.”

Leoni Oliveira, da Varzinha

“Temos problemas pontuais em duas linhas do transporte escolar. Caminhões ficaram parados por três dias. É preciso que se faça uma ação emergencial. Temos muitos terneiros para carregar, sem falar nos produtores que vão receber calcário para preparar o solo.”

Ivoni Ilha, do Santa Barbinha

“Nossa localidade é uma das maiores produtoras de grãos, e os campos são considerados os melhores do mundo para a pecuária. Seria um paraíso, se não fosse a situação calamitosa das estradas. Foram inúmeros pedidos junto à Secretaria de Obras, ao prefeito e aos vereadores. Sei que este ano está sendo chuvoso, porém nossas estradas sofrem com um problema crônico de muitos anos e diversos governos. Não estou aqui para adjetivar a atual gestão. Estou aqui para encontrar soluções, que os trabalhadores da secretaria de Obras tenham boa vontade de fazer um serviço caprichado e escutar sem o ar de superioridade e certa arrogância as ideias das pessoas da localidade, que conhecem de perto os problemas. Enfim, que o secretário saia para o interior, de preferência com o prefeito, e veja com seus olhos o serviço que está sendo realizado.”

Wilson Dias, do Seival/Carajá

Secretaria de Obras afirma que precisa priorizar atendimentos

De acordo com o secretário de Obras, Acidemar Henriques, a pasta está priorizando, com a estrutura que tem, os pontos que estão interrompidos, aqueles em que passa o transporte escolar e o escoamento de safra, e onde se formaram atoleiros. Nesses locais, a Prefeitura está fazendo uma recuperação rápida e pontual. De abril até julho choveu mais de mil milímetros e, segundo Henriques, não há estrada que suporte este volume de água.

“Nas localidades que as estradas tinham sido consertadas, tivemos de refazer. E aquelas onde o maquinário não tinham chegado, que já estavam ruins, ficaram pior. Tomamos a decisão de socorrer as partes mais pontuais. O trabalho triplicou, sendo que nossa estrutura permanece a mesma”, explica.

A Secretaria informa que, para o verão, está se preparando. A Administração conseguiu comprar mais três motoniveladoras e três caminhões.

“Isso praticamente dobra a estrutura de interior. Existe uma situação que precisa ser resolvida, tendo em vista que o período eleitoral se aproxima e, neste caso, as máquinas não poderiam ser entregues. Mas já está sendo visto. A previsão é receber em setembro, se a lei eleitoral não nos impedir”, justifica.

As equipes que irão operar as novas patrolas passarão por treinamento, e a ideia é montar mais turmas. A proposta do Executivo é, no verão e com uma estrutura mais forte, fazer um mapeamento do interior e iniciar pelas localidades onde escoa a produção e tem transporte escolar.

“Na verdade, todas as estradas são importantes, por isso, vamos atacar com mais estrutura e esperamos que o verão não seja tão chuvoso. Claro, que não falte chuva, mas que possibilite à Secretaria fazer seu trabalho para, quando chegar o inverno, dar apenas a manutenção’, avalia.

Após a audiência pública, a Secretaria se reuniu com o prefeito e com produtores para fazer um levantamento do que pode ser feito.

“Pretendemos acionar o Conselho do Fundestrada. O prefeito já autorizou a abertura de licitação com urgência para contratarmos mais dois caminhões. Como estamos no inverno, tem estradas que não dá para colocar patrola; então tem que ser com retro e caminhão para colocar cascalho e arrumar bueiros nos pontos mais críticos, para dar trafegabilidade para as comunidades do interior. Já estamos agilizando estas questões burocráticas para acelerar essa contratação e mais umas horas de retro para aumentar nossa estrutura de serviço”, declara.

Produtores e instituições se dispõem a ajudar

Na audiência, produtores de diversas localidades e presidentes de instituições puderam se manifestar. Eles colocaram suas demandas e também se dispuseram a ajudar a Prefeitura.

“São eles que estão direto no interior e conhecem de perto os problemas. O mais importante foi ouvi-los e saber que se propuseram a fazer uma parceria, porque eles sabem que a Prefeitura não tem estrutura para atender esta demanda tão grande”, diz Henriques.

Enquanto não recebe o maquinário, a Prefeitura pretende manter contato com os produtores, mas lembra que não pode esquecer das ruas da cidade.

“Fomos ao bairro Floresta, na rua da escola Eliana Bassi de Melo; quinta-feira, estivemos na São Domingos. Enfrentamos muitos problemas críticos de barro. Estamos correndo atrás, temos bastante esgoto estourado, quase todas as ruas têm uma bandeirinha apontando os buracos. Há uma equipe responsável por isso e que está trabalhando direto. Tão logo o tempo nos permita, começamos a dar conta do recado”, garante.

A Secretaria pretende também iniciar uma recuperação no calçamento da cidade. Os locais de onde foram retirados paralelepípedos, seja pela Prefeitura ou pela Corsan, serão recuperados.

“O material está guardado, mas a Prefeitura não tem calceteiro. Ano passado, foi aberta uma licitação para reposição de três mil metros de paralelepípedo. Infelizmente, nenhuma empresa apareceu. Agora conseguimos uma que se dispôs e é um trabalho que queremos começar nos próximos dias”, revela.

Acidemar destaca, ainda, que o problema não é só nas estradas. O município tem pontes antigas, feitas de madeira, e algumas delas foram levadas pelas chuvas.

“Onde passava um caminhão com 18 toneladas, hoje, passa bitrem com 40 toneladas, até mais. Por isso, só carros leves conseguem trafegar. Em 2021, abrimos licitação para ver se alguma empresa fazia ponte de madeira, mas ninguém mais faz. Precisa de um engenheiro que assine, e nenhum profissional quer se responsabilizar. Por isso, estamos buscando uma alternativa, junto ao Fundestrada, para substituir por alvenaria”, conta.

Condições das estradas onera produtores

Registro feito por Ana Maria Coradini, na Guarda Velha

Para o engenheiro agrônomo Luiz Antônio Brito Teixeira, a péssima condição das estradas está onerando os produtores. O custo dos fretes está cada vez mais alto, uma vez que as transportadoras calculam a manutenção de caminhões e até mesmo a possibilidade de quebra.

“Desde a safra de soja e arroz, tivemos problemas na colheita. O impacto foi menor porque não tivemos barro. Em contrapartida, os buracos causaram transtornos. A situação foi se agravando com o escoamento. Tivemos chuva, atoleiros. Já após a safra de verão, tivemos um impacto drástico. Os produtores precisaram carregar adubo, semente, movimentaram a safra de inverno com aveia, azevém ou trigo e tiveram prejuízos”, destaca.

O agrônomo ressalta que a manutenção de caminhões aumentou devido à péssima qualidade das estradas.

“É um somatório no custo. Produtores abandonaram áreas por falta de acesso. Nesta época do ano, ainda se está plantando aveia, mas o movimento maior é com o gado de pastagem. Pensando nisso, produtores já começam a comercializar gado gordo, e a retirada destes animais para os frigoríficos gera um impacto negativo. Um caminhão com no mínimo 25 bois precisa ter estradas boas para carregar a produção. Engordou, tem que vender. Então, para a pecuária, o problema maior é a retirada do gado gordo. As indústrias de calcário também estão puxando, porque estamos no período de calcarear as terras, pensando na safra de verão que está chegando. O custo deste insumo aumentou devido ao frete”, avalia.

No Seivalzinho, condições da estrada dificulta o transporte escolar. Crédito: Fluvia Oliveira

Teixeira explica que os produtores já estão adquirindo insumos para a safra de verão, da cooperativa, de outros pontos de venda ou até mesmo do porto de Rio Grande direto para as granjas de Caçapava.

“Quando se fala no município, nos locais de entrega, as transportadoras já ficam atentas. Um exemplo é o adubo nitrogenado que produtores utilizam para a produção de aveia, azevém e trigo. Além do custo da matéria-prima, o frete está mais caro devido à falta de condições de trafegabilidade”, observa.

Foto principal: Tisa de Oliveira

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