Numa noite fria do final de julho de 2012, os amigos Marcos Lacava, Rodrigo Mota e Marcelo Spode acabavam de jantar na casa deste, reclamando da baixa temperatura. Um deles alvitrou: “para aguentar este inverno só no norte de país”. O anfitrião levantou-se e lançou o desafio: “sempre me impressionaram as menções do prof. Eduardo Marin, nas aulas de geografia no Estadual, na extensão da costa brasileira, medindo mais de 7 mil quilômetros, do Oiapoque ao Chuí. Aceitam essa empreitada? Fugimos do inverno caçapavano numa das mais desafiadoras viagens, de ponta a ponta do país”.

Como se fizessem um pacto sagrado, abrindo um mapa do Brasil, já foram traçando o trajeto e anotando as necessidades de tamanha envergadura, de um mês e meio de duração, no mínimo.

Qual o meio de transporte, perguntou Rodrigo.

Meu “Fusquinha 75”, respondeu Marcelo. Está em ótimas condições e resulta de fácil manutenção e economia de combustível.

Estava resolvido. Assinalaram na carta geográfica o roteiro, trataram de reunir os petrechos necessários para acampamento e, a 1º de agosto, defronte ao antigo Posto Texaco, iniciaram a grande aventura de desbravar o país de sul a norte e de norte a sul.

No primeiro dia, seguindo pelas BRs 392/158, cruzaram na ponte em Iraí e acamparam na margem do rio Uruguai. Pela BR 282 e estradas estaduais catarinenses e paranaenses, chegaram à próxima parada, em Foz do Iguaçu; daí, sempre costeando a fronteira oeste do Brasil, chegaram ao Moto Grosso do Sul, epela BR 163,atravessaram o Pantanal, até Campo Grande, mais navegando do que rodando. Seguiram para Cuiabá e, pela BR 364, chegaram a Porto Velho. Pernoitaram pela primeira vez em hospedaria, que chamaram de “Hotel das Pulgas”, ao preço de 25 reais a diária, com café da manhã, onde desfrutaram breve parada.

Mudando de rumo, em direção ao norte, em Humaitá, às margens do rio Madeira, trafegaram pela famigerada BR 319, com destino a Manaus. Ao longo da viagem, até então, haviam chegado a trafegar a 100 quilômetros por hora; de Humaitá em diante, a velocidade baixou para 100 quilômetros por dia. Quatro dias e meio para percorrer 400 quilômetros.

Esta estrada para ser péssima tem que melhorar muito, disse Marcos.

Em Manaus, para dar um descanso a todos e ao “Possante”, embarcaram e navegaram pelo portentoso rio Amazonas até Macapá. No estado do Amapá, na avenida da Capital sobre a linha do Equador, iam e vinham do inverno para o verão e do hemisfério sul para o do norte. No rio Araguari, apreciaram a famosa pororoca e, na foz do rio Orinoco, chegaram ao cabo Orange, por muito tempo tido como o extremo norte do país, até a descoberta do monte Caboraí, na divisa de Roraima com a Guiana.

Enfim, chegaram ao desiderato: rio Orinoco, e Marcelo vira-se para o sul e brada: “professor Marin! agora vai ser de fato do Orinoco ao Chuí”. Engataram uma primeira no “Fusquinha” e desceram o país pelo Pará, Tocantins, Goiás, Minas, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, e de volta ao Rio Grande, rumaram direto ao sul do estado. No arroio Chuí, extremo sul da costa brasileira, outra vez Marcelo, agora virando-se para o norte e colocando as mãos em concha na boca gritou: “professor Martin, em sua homenagem fizemos este percurso do Orinoco ao Chuí”. Em meio à “Semana da Pátria” estavam de volta em casa. Haviam percorrido cerca de 15 mil quilômetros, dos quais, 3 mil em estradas de terra e 2 mil navegando.

E pensar que essas histórias são apenas história, no verão passado, um grupo de jovens universitários, utilizando principalmente estradas vicinais, cruzando vários municípios da Campanha, foram até Aceguá, no Uruguai. Esse grupo costumava realizar “raides” pelas redondezas, até que resolveu ousar. Apoiados por um “Fusquinha”, iniciando pela estrada do Salso, chegam às Minas do Camaquã e, daí, sempre por estradas municipais, passaram por Santana, Piratini e Pinheiro Machado. Daí em diante, por absoluto desconhecimento dos possíveis trajetos, pedalaram pelas BRs292 e 153 até as cidades gêmeas de Aceguá.

A bagagem e petrechos de acampamento foram transportados pelo“Fusquinha”. Mas a inexperiência dos aventureiros logo se fez sentir. Todo equipamento foi colocado direto na capota do carro. E como o “Fusca” possui motor traseiro e de arrefecimento a ar, os objetos colocados no toldo impediam a passagem do ar para resfriar o motor. Enquanto transitavam por estradas de terra e as bicicletas trafegavam em ritmo lento, tudo bem; mas quando seguiram pelo asfalto das Federais, logo o motor do carrinho superaqueceu e fundiu. Socorridos por uma “Kombi”, chegaram ao destino, confraternizando em um marco divisório de fronteira, em Aceguá.

Na mesma época, outro grupo, agora de profissionais universitários, com caiaques e barcos a remo, partindo do Passo do Cação, desceu o rio Camaquã até o passo da antiga barca, na divisa de Santana com Piratini. O rio Camaquã tem três importantes nascentes, as quais, no encontro, formam o caudaloso estuário da Metade Sul do estado. O Hilario, com nascentes aquém da Coxilha Grande em São Gabriel e Vila Nova, desce do norte e faz a divisa dos municípios de Caçapava e Lavras; o Lavras, começando na Serra do Tabuleiro, ao banhar a cidade forma o aprazível balneário do Paredão; o Chico, com nascentes na Serrilhada, em Bagé , na divisa com o Uruguai. Este, no último trecho, próximo a desaguar no Camaquã “Grande”, na divisa de Lavras e Bagé, nas proximidades de separar Caçapava de Bagé, possui um “canion” que ganhou a mal escolhida alcunha de “Rincão do Inferno”. Junto às cataratas horizontais de Yuicumã, no rio Uruguai, no município de Derrubadas, são, com certeza, as mais exuberantes paisagens em rios do Rio Grande.

E confirmando a atualidade esses eventos, Jonas Ferreira e ten Ricardo Almeida equiparam suas “Kombis” e, na segunda-feira passada, iniciaram viagem com destino a Ushuaia, extremo sul do Mundo. Nesta sexta-feira, segundo o plano estabelecido, devem estar cruzando os Andes em San Carlo de Bariloche, fronteira da Argentina com o Chile. Pela ruta Austral, vão percorrer a região dos lagos, retornando à Patagonia argentina para alcançar a Terra do Fogo. Essa escolha de transporte não é pioneira em Caçapava, pois, na década de 70, Carlinhos Almeida equipou sua “Kombi” e, com a família, circulou pelo interior do Uruguai e províncias argentinas próximas à fronteira com o Brasil. Jonas, que viaja com familiares, justificou repetir a viagem de 2016, com pequenas variantes: “Agora vamos ver o que ficou para trás na outra vez”.

Rivadavia Severo