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“Matar mulheres é um crime democrático”

“Matar mulheres é um crime democrático”

A citação acima está na página 20 de Mulheres empilhadas, de Patrícia Melo. Na orelha do livro, diz que “ESTA É UMA OBRA DE FICÇÃO, mas todas as personagens deste livro existem de fato”. E existem mesmo, temos que reconhecer isso. Todos que não optamos por vendar nossos olhos à realidade sabemos que é verdade. Assim como sabemos que a citação do título também é: este é um crime que ocorre em qualquer classe social, a vítima pode ser qualquer pessoa, e o assassino também.

Mulheres empilhadas é uma obra “para os fortes”, porque mostra como a vida das mulheres vale muito pouco. Foi uma leitura que me deixou muito triste, muito revoltada, mas que é extremamente necessária por nos fazer pensar sobre o tema. O medo da protagonista é o mesmo medo que todas as mulheres temos. A reação do namorado dela, de quem pensa “não foi nada demais o que eu fiz” é a mesma de muitos homens.

Mas vamos falar um pouco sobre a narrativa. Tudo começa em uma festa em que a protagonista, uma advogada, está com seu namorado, Amir. Ela está em uma área externa, fumando, e quando retorna para o interior da casa e encontra-o, Amir reage violentamente, querendo saber onde ela estava e com quem estava. Ele a empurra para dentro de um banheiro, onde segue com os questionamentos até que lhe dá um tapa no rosto e lhe chama de vadia, indo embora em seguida. Eles se separam, e a protagonista viaja a trabalho para o Acre, onde acompanhará um mutirão de julgamentos de assassinatos de mulheres. Quanto a Amir, ele custa a entender que a relação acabou. É a partir daí que tudo se desenrola.

Além do que está no título da coluna, muitos trechos do livro me chamaram a atenção, mas vou destacar apenas mais dois. Na página 45, a avó da protagonista diz a ela: “nosso silêncio é uma merda […] Essas mulheres morreram porque não conseguiram falar. Não falar – disse ela – é uma tragédia”. Por quê? Porque muitas mulheres se calam frente às agressões que sofrem. Em muitos dos casos, as vítimas são dependentes dos agressores e, por isso, vão aguentando a situação até serem assassinadas. Mulheres, não se calem! É uma questão de sobrevivência.

Outro trecho a destacar é o da página 75: “Não importa onde você esteja. Não importa sua classe social. Não importa sua profissão. É perigoso ser mulher”. Esse tem a ver com o caráter democrático dos crimes contra mulheres, e não precisa de muitas explicações… É só abrir os olhos para o que acontece todos os dias ao nosso redor para ver que, infelizmente, é a mais pura verdade.

Quanto ao texto de Mulheres empilhadas, ele apresenta um aspecto que, do meu ponto de vista, é uma característica dos trabalhos de Patrícia Melo: ele prende o leitor e flui perfeitamente, fazendo com que queiramos saber cada vez mais sobre aquela história e não consigamos parar de ler até chegar ao ponto final na última página.

 

Referência: MELO, Patrícia. Mulheres empilhadas. São Paulo: LeYa, 2019. 288p.

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