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Peleando com o lockdown

Peleando com o lockdown

Ah, meus amigos, nem lhes conto. Seu Nicácio se enredou com o tal de lockdown que o nosso prefeito inventou de implementar em Caçapava um dia desses. Sempre que vem pra cidade, se locomove de carroça, numa charrete velha rústica, pintada de verde, puxada por um petiçote tordilho lustroso, de nome Petico que, por sinal, é os mimos do dono. Aproveita essas vindas raluscas para comercializar alguma quitanda que arrebanha pela vizinhança, pra fazer uns trocados pra custear o milho do cavalo que já passou dos 50 pila o saco.

Pois o homem velho não ficou sabendo do decreto esse atrapalhativo e, mesmo se escutou no rádio, também nem deu muita bola. Porque, para ele, ninguém poderia, assim de relancina, e sem medida de exceção, implantar um estado de sítio desses que trancou as pessoas dentro de casa: – Bueno, mas agora é ditadura das brabas, ué sai! Parece que ficaram de miolo mole, tchê!

Encontrou tudo fechado e, quando procurou pelos conhecidos para entregar as encomendas de queijo, ovo e rapadura que trazia, foi muito mal recebido, de revesgueio, espiando por detrás das portas, mascarados e sem lhe deixarem passar pra diante. Disseram que era para evitar aglomeração em locais públicos, para minimizar a transmissão do tal vírus aquele que ele medica com doses diárias de creolina e tá bem bom.

– Tá, mas será que acreditam que o bichinho vai desaparecer em sete dias, assim de repente, só porque o prefeito mandou? – pensou lá com seus botões. E o povo, e ele próprio, sem serviço, sem auxílio do governo e sem dinheiro, como é que vão pagar as contas, encerrados em casa. Ainda bem que ele não tinha mais sogra pra aguentar a velha enchendo o saco uma semana inteira sem poder sair de casa. E os miúdo sem ter o que fazer, sem escola, sem poder sair pra rua? Tão tudo loco… E ainda ficou sabendo, de pé da orelha, em segredo, que as cestas básicas que prefeitura adquiriu com dinheiro federal, para ajudar os pobres, tinham terminado antes da eleição. E não compraram mais…

Ouviu, já de volta e desenxabido, que o hospital tá lotado e continua morrendo gente por causa da tal baba chinesa que passa para quem espirra nos outros ou cospe quando fala sem máscara na cara. Ficou com uma dúvida: será que o tordilho também pega essa desgraça? O pobre veio sem biqueira no focinho e, atacado do garrotilho, anda botando um aguaceiro pelo nariz. Se pega, também transmite, e aí o estrago vai ser grande, porque ficou uma manhã inteira estacionado ali perto da farmácia, onde sempre cruza muita gente. Quando chegasse em casa, iria lhe queimar uma estopa com creolina nas ventas, fazendo fumaça.

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