Selecione a página

Uma doença que deixa rastros

Uma doença que deixa rastros

Em Caçapava, segundo dados da Prefeitura divulgados na sexta-feira, dia 26, 1.861 pessoas já venceram a Covid-19. Mas muitas delas, agora, travam uma nova batalha contra as sequelas da doença.

A fisioterapeuta Ana Paula Machado Pereira, que atende pacientes em recuperação da Covid-19, diz que a maioria se queixa de problemas respiratórios: cansaço, fadiga e dificuldade para caminhar.

– Alguns chegam dizendo que se sentem bem e não sabem por que o médico os encaminhou, mas quando começam a fazer os exercícios respiratórios, veem que estão com dificuldade, que cansam rápido e é necessário dar intervalos para que descansem. Outras pessoas chegam já com a noção de que precisam, porque, ao caminhar uma quadra, cansam, assim como ao fazer atividades do dia a dia, como subir uma escada – relatou.

Segundo a fisioterapeuta, não é possível separar a parte respiratória da física, em especial de pacientes que ficaram muito tempo acamados, pois eles perdem muita massa muscular, principalmente quem esteve internado em UTI.

– Essa perda de massa muscular vai trazer não só o cansaço respiratório, mas também o muscular. Essas são as duas coisas que eles relatam maior dificuldade, mas a parte respiratória é a pior. Nos pequenos esforços, com coisas que a pessoa fazia normalmente, ela já cansa, tem que parar, respirar um pouco. Isso é o que eles mais reclamam – contou.

De acordo com Ana Paula, o tempo de recuperação desses pacientes vai depender do grau de acometimento da doença, do tempo que ficaram hospitalizados, de quanta massa muscular perderam, de como o organismo vai responder à fisioterapia, e se fazem os exercícios que devem em casa.

– Com o tratamento, a gente vê uma melhora progressiva ao passar das semanas, mas não tenho como dizer se um paciente vai voltar ao normal, porque esse é um vírus novo para todo mundo, ninguém sabe ao longo prazo. A gente terá que ir tratando, mas é o tempo que vai nos dizer se vão ficar sequelas ou não. A maioria tem uma melhora boa. Há pacientes que chegam na primeira semana relatando que cansam nos primeiros esforços; passam duas semanas, e eles já conseguem fazer um pouco mais do que faziam no início. A gente vê que o progresso é lento, mas ele existe – disse.

Fisioterapeuta Ana Paula Pereira atende
pacientes que se recuperam da Covid-19

 

“Caminho uma quadra, tenho que parar, e o mundo some”

Um dos pacientes que luta contra os danos deixados pela Covid-19 é o secretário de Obras Acidemar Henriques, 55 anos. Ele teve a doença há sete meses, em agosto de 2020.

– Depois da Covid, sofro de esgotamento físico e mental. Há períodos em que estou bem; em outros, sinto muita dor de cabeça, nas pernas, perco o apetite, dá um desânimo total. Em fevereiro, precisei ser hospitalizado novamente, por cinco dias. Tive indisposição, náuseas. Tem noites que durmo só quatro horas, mesmo tomando remédio.

Acidemar diz sentir ter envelhecido 10 anos após a Covid-19, e que há dias em que apenas quer “estar sentado no sofá de olhos fechados, desligado do mundo”:

– Antes eu era um cara agitado, sempre pronto pra fazer as coisas, que gostava de estar trabalhando, de estar envolvido. O meu dia começava às sete da manhã e terminava a meia-noite. Hoje, a minha saúde está totalmente diferente. Antes, não tinha problema de nada; agora, tomo remédio pra pressão, pra ansiedade, pra dormir, pra abrir o apetite, vitaminas, remédio pra tudo. Caminho uma quadra, tenho que parar, e o mundo some; não caio, mas tonteio e preciso me escorar em alguma coisa ou em alguém. Já aconteceu de eu entrar no mercado e me dar um apagão, a cabeça ficar chiando, pressionada. Nunca tinha sentido isso. Tudo são sequelas da Covid – relata.

Ele relembra que, no começo, foi um dos muitos que menosprezaram a doença:

– Eu era daqueles que fazia coro dizendo que era uma gripezinha, que não dava nada. Mas tive a real dimensão do que é. É uma doença terrível, que leva vidas, e o que não leva, deixa com sequelas. Tomara que um dia eu possa dar um depoimento dizendo que não tenho mais nenhuma sequela, mas hoje, infelizmente, sinto no meu corpo as heranças que a Covid deixou.

Secretário Acidemar Henriques precisou ser
hospitalizado devido às sequelas da Covid-19

 

Infarto em decorrência da Covid

O caso da jornalista Tisa de Oliveira, de 41 anos, é mais recente. Tudo começou no dia 01 de março, quando seu marido, Juarez, 51 anos, testou positivo para a Covid-19. Ele teve sintomas leves, tanto que conseguia seguir trabalhando de casa. Uma semana depois, Tisa teve os primeiros sintomas, fez o teste e confirmou que também havia contraído a doença.

– No quarto dia, passei mal. Tive que ir pra tenda [onde são atendidos os pacientes com Covid]. Minha pressão encostou [quando os valores ficam muito próximos], o médico não sentia os batimentos.

Tisa se recuperou em alguns dias, mas aí foi seu marido quem passou mal: ele sentiu dor muito forte no peito e os braços amorteceram. Levado para o Pronto Atendimento, recebeu o diagnóstico: infarto. Juarez foi transferido para Santa Cruz do Sul, passou por um cateterismo e precisou colocar um stent (espécie de tubo usado para restaurar o fluxo sanguíneo na artéria).

– O médico falou que ele teve uma embolia, que resultou no infarto. Tudo isso em decorrência da Covid. Segundo o médico, outros casos assim, de infartos em decorrência da Covid, já deram entrada aqui em Santa Cruz – contou Tisa, por telefone, na terça-feira. Na quarta, Juarez teve alta, e a família ficou sabendo que a filha, Ana Júlia, também havia sido contaminada. Ela teve sintomas leves e já saiu do isolamento.

Além da jornalista Tisa de Oliveira, seu marido Juarez

e sua filha Ana Júlia tiveram Covid-19

Sobre o autor

Publicidade

Ouça nosso Podcast

TV Gazeta – Vídeos

Previsão do Tempo

Publicidade

Publicidade

RESULTADOS

Signos

Publicidade

Publicidade