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Um Olhar para a Vida – Pagando “mico” – Anna Zoé Cavalheiro

Um Olhar para a Vida – Pagando “mico” – Anna Zoé Cavalheiro

Noutros tempos, chamava-se “rata” qualquer situação embaraçosa em que nos envolvíamos devido a um engano desastroso. Como os que nossa mãe cometia, pois era muito má fisionomista, não conseguia gravar na memória um rosto, às vezes bem conhecido. Aconteceram várias “ratas” suas que ficaram no anedotário da família.

Uma delas foi quando ela atendeu à porta e cumprimentou o senhor que batia, convidando-o a entrar até a cozinha, passando pelo antigo corredor da casa, antes da última reforma. Ele entrou constrangido e mais ficou quando ela lhe disse: “Fiquei muito triste com sua cama, não era bem assim que a encomendei.” E ele respondeu: “Ah, a senhora mandou fazer uma cama?!” Então, ela olhou bem para ele e viu que não era o marceneiro, e sim um taxista que vinha tratar de uma corrida. Ainda bem que o caso terminou em risadas e não teve conseqüências desagradáveis.

Hoje, costuma-se dizer “Paguei um mico” em casos assim. Os nordestinos dizem “não se avexa”…

Pois eu paguei o maior mico da minha vida no ano passado. E até agora não tivera coragem de contá-lo com medo de represálias. Mas o que passou, passou, caiu em exercício findo. Assim espero.

Naquela ocasião houve dois assaltos a taxistas da cidade, e nos dois o bandido abriu a boca da vítima a facada até a orelha. Foi muito comentado esse caso e também havia um zunzum sobre um carro misterioso que ficava dias e noites estacionado no mesmo lugar sem se saber quem era o dono.

Isso estou contando para ver se alivio minha culpa.

Comecei a notar um automóvel que não saía de frente da minha casa. Nunca havia alguém nele. Certa manhã, vi uma pessoa no banco do carona com o braço levantado e uma faca na mão (de serrinha, fiquei sabendo depois). Embarquei no meu carro e fui direto à Brigada Militar dar parte do episódio. Lá eles me deram razão e comentaram sobre o tal carro misterioso.

Apavorada, telefonei para a minha casa alertando e pedindo que fechassem portas e janelas. E fui dar umas voltas antes de retornar bem a tempo de ver um policial proceder à revista do suposto meliante. Coitado, ficou indignado e por pouco não foi detido por desacato. Lígia, muito curiosa, assistiu da janela semi-aberta (por precaução).

Tratava-se de um operário de obra ali perto, no seu intervalo de almoço. Passei a vê-lo todos os dias no mesmo trabalho, e o olhar que me dirigia era misto de revolta e muita mágoa. Fiquei com vontade de pedir-lhe perdão, mas me desaconselharam. Poderia ser mal recebida.

A obra está pronta e habitada. Foi feita a capricho, graças ao trabalho honesto e competente desse operário pontual e assíduo que mal tinha tempo de almoçar… em paz.

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