Nos meus verdes anos, o mês de agosto era temido pelos mais velhos. Pois muitos deles, já com a saúde abalada, não resistiam aos rigores de nosso inverno. Setembro chegando, os sobreviventes comemoravam “ainda não foi desta vez”.

Para mim, setembro teve sempre um significado especial. Dias claros, alegres, coloridos. Passarinhos parecendo mais barulhentos. Donas de casa arejando as cobertas pesadas e empenhadas nas faxinas mais rigorosas, para tirar o mofo das paredes, dos móveis, das roupas. As escolas, naquele tempo, promoviam passeios pelas ruas da cidade e algum piquenique nos arredores.

Os campos reverdecem, e os rebanhos fartam-se naquele verde sem fim. Terneiros e cordeirinhos pulam e correm, como crianças, na alegria de viver.

Ontem tive a satisfação de encontrar no caminho aquele pessegueiro da avenida coberto de flores. Senti que era uma mensagem da Primavera que está chegando. Neste ano tão frio, mais desejada que nunca, ela vai ser muito bem-vinda.

Mas o que mais noto nessa estação é a mudança de ânimo das pessoas. É a vida que se renova, as temperaturas amenas, a claridade dos dias, o verde das árvores, aquele verde translúcido que eu noto todos os anos na mesma árvore… É um verde novo, só visto no anunciar da estação. Como o olhar sonhador dos adolescentes e jovens que se abrem para o futuro e para o amor.

Lembro meus alunos da escola primária quando setembro começava. Meninas e meninos que até então se consideravam apenas colegas começavam a encarar-se de outro modo . Flagrei diversos bilhetinhos apaixonados entre eles. E no ginásio não era diferente. Muitos romances que começaram na milagrosa primavera resultaram nesses casais que comemoram hoje, felizes, suas bodas de prata ou de ouro.

Por isso, jamais pensei em mudar-me daqui. Um clima com quatro estações é uma bênção. Faz a gente compreender melhor a vida, que não há um dia igual ao outro. Se nos sentimos tristes ou aborrecidos hoje, amanhã será melhor, os problemas se resolvem, o sol aparece, os sorrisos também.

Os temores que nos afligem agora, com a situação do país em véspera de eleições, a partir de agora já não nos parecem tão sinistros. A Primavera traz-nos novas esperanças.

Só pode entender com corpo e alma os milagres desta bela estação quem passou pelos rigores que estamos vivendo neste longo inverno.

Anna Zoé Cavalheiro