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Madrugadores

Madrugadores

Um dia desses passados, um dos últimos de dezembro de 2021, acordei mais cedo do que de costume, assustado, sonhando que ainda estava no quartel, que havia chegado atrasado no serviço e teria de me justificar com meu comandante. Baita fria, porque nenhum milico pode chegar depois da hora e, se perder a formatura matinal, então tá ferrado.

Foram mais de 33 anos de serviço na caserna, que se encerraram em 2001, mas, até hoje, sonho que ando fardado e sempre em apuros com as regras disciplinares mais rígidas do que a dos civis, aliás, coisa que nunca me aconteceu porquanto estive no serviço ativo. Nunca fui punido, nem deixei de dar o bom exemplo aos que me eram subordinados, e também jamais me esqueci do lado humano para com aquela gurizada de dezoito anos que vai para o quartel sem conhecer o ambiente e sem saber direito porque está ali.

Nesse dia, apaguei as luzes externas da casa, dei milho quebrado para os mais de 30 garnisés de todas as idades e procedências, dei ração para a cachorrada e para a gata, e abri o portão da rua para um que passa a noite inteira rosnando para seu desafeto do outro lado da cerca.

Ato contínuo, palmilhei o celular enquanto esquentava o leite pro café no micro-ondas, e lá estava a mensagem de um amigo, homiziado na campanha desde o início da pandemia, postada as 6h53min da manhã.

‒ Também, dormem com as galinhas e levantam de madrugada para tomar mate, apreciando a natureza. Haverá coisa mais boa? – pensei.

Naquele momento, lá pelas 07h30min, passou um filme na minha cabeça: de tantas vezes em que levantei mais cedo por necessidade; um recém-nascido que chorou a noite inteira, só dorme quando o dia vem clareando; uma viagem a trabalho fora da rotina profissional; uma reunião política na capital, quando aqueles que determinam o horário nunca pensam que as pessoas moram em Uruguaiana e que dista 600 quilômetros de POA; ou uma ida para o interior, quando o teu chefe vai de avião e tu tem de ir de carro, e ainda chegar na frente dele para verificar a segurança e/ou o deslocamento terrestre no local.

Recordei de quando trabalhei no Gabinete do governador Tarso Genro (2014), e ele costumava jogar basquete antes das sete horas da manhã, com qualquer clima, em qualquer cidade em que estivesse, para cujo exercício o pessoal da segurança teve quatro anos para assimilar as regras e a prática do esporte nem tão popular assim entre “nosotros”.

Enquanto escrevia essa croniqueta com cara de conto, me voltou o sono e, como não tivesse nada ou quase nada de produtivo para fazer, resolvi dormir de novo e, vocês não vão me acreditar, sonhei de novo: só que dessa vez eu era novo e tinha uma enorme expectativa acerca da profissão que escolheria para fazer minha vida. Acreditava que o mundo era bondoso para com todo mundo, e eu ainda pensava que as pessoas eram solidárias, que ganhar dinheiro era uma coisa muito fácil, e que nunca envelheceria, que teria muitos filhos, muitos amigos e uma penca de netos lá no infinito da existência.

Acordei assustado de novo: como eu era ingênuo quando mais novo! O mundo velho, este de hoje, continua como sempre foi, só que facilitado pela tecnologia.

Naquele dia, resolvi não sestear para evitar um terceiro sonho no mesmo dia e, talvez, ainda pior do que os outros dois.

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