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Nariz na vidraça

Nariz na vidraça

Choveu demais nesta semana recém se terminando (início de maio de 2022), quando escrevi esta croniqueta que ficou, por isso mesmo, um tanto quanto umedecida. Vou publicar para que não mofe pela falta do sol do inverno da nossa terra sulina. Como eu gosto muito de chuva, sempre que posso, aproveito para curtir essas águas caídas do céu. Me envolvo com elas, mesmo sem ficar molhado pelos aguaceiros, de lombo seco, dentro de casa.

Num dia desses, encostei o nariz na vidraça e fiquei ali escorado, assistindo aos pingos sumirem por entre o capim do gramado da frente da casa, calmamente, enquanto os galhos das árvores, curvados ao peso de tanta água acumulada em suas folhas, pareciam querer se encostar no chão. A ramada de maracujazeiros acumula mais e fica tal qual fosse um tapete pesado estendido num varal. Me dei conta que eu também me curvo em reverência  quando o cachorro grande vem arranhar na porta da cozinha, ao menor movimento de trovoada ou relâmpago, para ir se deitar debaixo de uma mesa ou dentro da lareira apagada por ainda não estar tão frio e pela necessidade de poupar a lenha já estocada no galpão, que a cada ano fica mais cara. Me solidarizo com seus temores, parecendo de gente que tem iguais maus agouros. Só me falta fazer cruz de sal num pires e tampar os espelhos para prevenir dos raios, costume dos mais antigos.

Para muitas pessoas, o excesso de chuvas é motivo de preocupações e desespero, pela possibilidade de trazer alagamentos, deslizamentos, ilhamentos e coisas assim, que prejudicam a vida de muita gente boa. Dói mais para quem mora nas beiradas das encostas de morros, vizinhos de sangas e riachos, onde o terreno vale menos e até as invasões de áreas públicas são ignoradas. Pior é quando essas enchentes acontecem no inverno. Chuva e frio castigam a vida daqueles que, normalmente, mais precisam.

Noutro dia, descobri que a minha reverência pelo tempo chuvoso vem do cheiro que ela carrega nos seus aguaceiros. Certa feita, avistei uma estrela solita, que me piscava do infinito, como flertando comigo, numa noite clara, dessas da entrada do inverno, de lua cheia, sinalizando que, dali a pouco, São Pedro mandaria abrir as torneiras do céu, e o nosso pedaço de terra se inundaria, assim como as lágrimas de quem ainda chora pelo desencanto de um grande amor perdido.

Por isso, admiro os poetas que, inundados de inspiração e de “alma encharcada”, escrevem preciosidades significativas para quem tem sina de pluviófilo: “as águas correm para os rios, os rios correm para o mar, só as águas do meu pranto, eu não sei onde vão parar”. Nem eu… Até porque não costumo chorar em dia chuvoso, para evitar maiores confusões, pela possibilidade de inundar meu peito e afogar meu coração em sua própria morada. Aliás, para este velho coração, que já enfrentou tantos dissabores e já está calejado, não será uma ou mais uma enxurrada de lágrimas que vai lhe trazer a aposentadoria.

Porque, se vocês ainda não sabiam, hoje lhes conto: o coração irriga a mente, que faz a criatura pensar, e é com o andar da vida que a gente aprende que a razão pode ser mais importante do que a emoção quando as coisas não acontecem como desejamos. Ah, mas é preciso certo treino para não se desapontar com os abalos emocionais que nos acontecem quase todos os dias, aprendendo a separar as coisas. A prática do pensamento reflexivo, para dentro da gente, pode muito bem nos ajudar. Pratique, por esporte.

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